Resumo do artigo feito pelo Tio Chatinho:
Neste artigo, Nepô apresenta a arquitetura conceitual da Escola Bimodais e a Teoria do Demografismo Midiático Cooperativo (TDMC) para explicar as transformações do século XXI, demonstrando como o surgimento da Era Digital combina tendências históricas recorrentes de reorganização social diante do aumento populacional com inovações sem precedentes, como a Curadoria baseada em rastros digitais e a popularização das Mentes Artificiais na resolução de problemas massificados e personalizados.
Vamos ao Artigo:
“Primeiro nós moldamos as nossas ferramentas e depois as nossas ferramentas nos moldam.” – John Culkin.
Uma das perguntas mais importantes do século XXI parece simples, mas está longe de ter uma resposta satisfatória.
Onde estamos?
E, principalmente:
Para onde estamos indo?
Nunca houve tanta produção de conteúdo sobre o Digital.
Nunca tivemos tantos especialistas.
Nunca houve tantas previsões.
Mesmo assim, permanece uma sensação generalizada de desorientação.
Entendemos partes do fenômeno.
Vivemos como aqueles cegos que ficam tentando entender o elefante, cada um segurando uma parte, mas não conseguindo ver o todo.
Mas ainda não conseguimos enxergar sua arquitetura.
Os chamados pensadores do Digital procuram responder essas perguntas há décadas.
Foi exatamente esse o desafio que assumi pessoalmente há mais de vinte anos e que a Escola Bimodais transformou, há quase oito anos, em sua principal agenda de pesquisa.
Nossa hipótese sempre foi simples.
Para entender adequadamente o presente, não basta estudar apenas aquilo que torna o Digital diferente.
É preciso separar dois fenômenos que normalmente aparecem misturados.
- O primeiro é um fenômeno inusitado;
- O segundo é um fenômeno recorrente.
Enquanto essa separação não é feita, as análises permanecem fragmentadas.
O Digital possui, sem dúvida, características inéditas.
Pela primeira vez conseguimos registrar rastros digitais em larga escala.
Pela primeira vez criamos Mentes Artificiais capazes de executar atividades antes exclusivamente humanas.
Pela primeira vez bilhões de pessoas conseguem cooperar quase em tempo real, por exemplo, na previsão de engarrafamentos, via Waze, descartando a necessidade precária de um helicóptero dando informações de trânsito de uma rádio ou de uma televisão..
Tudo isso é muito novo.
Ignorar essas novidades impede compreender o presente.
Mas existe outro erro igualmente grave.
O Digital também faz parte de um padrão muito mais antigo, um fenômeno milenar recorrente.
Ele representa apenas a mais recente Revolução Midiática da Macro-História, que já teve várias.
Assim como ocorreu com a chegada dos gestos, da oralidade, da escrita manuscrita e depois com a impressa. E ainda com a chegada do rádio e da televisão.
Estamos novamente diante de uma mudança estrutural na forma como a espécie organiza sua sobrevivência.
Foi essa percepção que levou a Bimodais ao desenvolvimento da TDMC, a Teoria do Demografismo Midiático Cooperativo.
Sua arquitetura pode ser resumida em cinco movimentos.
- a Tecnoespécie aumenta a população;
- mais gente, aumenta a complexidade;
- a complexidade exige descentralização;
- a descentralização exige potencialização;
- a potencialização exige uma Renascença Conceitual.
Detalhemos.
O Sapiens é uma Tecnoespécie.
Por conseguir reinventar continuamente suas formas de cooperação, aumenta progressivamente sua população e passa a viver numa crescente interdependência global.
O crescimento populacional aumenta simultaneamente duas formas de complexidade.
- A quantitativa – mais pessoas;
- E a qualitativa – mais singularidades, mais diferenças, mais demandas específicas, mais necessidade de coordenação.
Para lidar com essa complexidade crescente, a sociedade precisa reinventar seus modelos cooperativos.
No longo prazo, a estratégia estrutural mais sustentável consiste em distribuir decisões.
Em outras palavras:
Combatemos a complexidade crescente com o necessário e obrigatório aumento da descentralização.
A descentralização não funciona sozinha.
Ela exige pessoas capazes de assumir responsabilidades cada vez maiores.
Daí surge uma segunda tendência estrutural.
Quanto mais descentralização, maior a necessidade de potencialização individual.
Não basta distribuir decisões.
É preciso distribuir competência.
Essa nova demanda obriga uma profunda revisão conceitual.
Paradigmas antigos deixam de explicar adequadamente a realidade.
Novos conceitos precisam ser criados.
Outros precisam ser reformulados.
Alguns simplesmente precisam ser abandonados.
Cada Revolução Midiática acaba produzindo uma Renascença Conceitual.
É justamente essa sequência de processo que estamos vivendo.
Além de repetir esse padrão histórico, o Digital acrescenta duas novidades sem precedentes.
A primeira é o surgimento dos Rastros Cooperativos Digitais.
Eles tornam possível abandonar progressivamente o modelo tradicional de Gestão, baseado predominantemente na oralidade e na escrita, para um novo modelo de Curadoria, baseado em reputação distribuída.
Por isso, plataformas como Uber, Airbnb e tantas outras conseguem resolver problemas massificados com custos muito menores (por não precisar de um centro controlador mais caro) e com níveis de personalização impossíveis nos modelos anteriores.
A segunda novidade é o surgimento das Mentes Artificiais.
Pela primeira vez, a sociedade passa a contar com inteligências não humanas capazes de ampliar exponencialmente a oferta de soluções personalizadas.
Aquilo que antes dependia exclusivamente de especialistas humanos começa a ser parcialmente compartilhado com mentes artificiais.
Se a Curadoria representa uma nova resposta para problemas massificados, as Mentes Artificiais inauguram uma nova resposta mais barata e personalizada para problemas de larga escala.
Se os Rastros Digitais revolucionam a solução de problemas massificados, as Mentes Artificiais começam a revolucionar a solução de problemas personalizados.
Durante toda a Civilização 1.0, atividades altamente personalizadas dependiam quase exclusivamente de especialistas humanos.
- Médicos;
- Psicólogos;
- Professores;
- Advogados;
- Consultores.
O atendimento personalizado sempre encontrou um limite natural.
O custo da inteligência humana.
As Mentes Artificiais começam a romper esse limite histórico.
Elas reduzem drasticamente o custo da inteligência personalizada.
Passamos, assim, a oferecer soluções individualizadas em uma escala que antes era economicamente inviável.
É o início daquilo que podemos chamar de Gepetização de diversas atividades humanas.
Assim como a Uberização reorganizou problemas massificados através da Curadoria Digital, a Gepetização tende a reorganizar problemas personalizados através das Mentes Artificiais.
Na medicina, por exemplo, as MACAVEMIs (Mentes Artificiais Cada Vez Mais Inteligentes) amplia exponencialmente a capacidade de análise, orientação e acompanhamento individual.
Na psicologia, permite novas formas de reflexão, apoio e organização da experiência subjetiva.
Na educação, viabiliza percursos de aprendizagem adaptados às características específicas de cada aluno.
Não estamos apenas automatizando tarefas.
Estamos criando uma nova infraestrutura para ampliar a inteligência disponível para cada indivíduo.
O Digital, portanto, promove duas transformações simultâneas.
- A primeira distribui a coordenação de problemas massificados, numa primeira fase dentro de Plataformas (mais centralizadas) e na segunda etapa dentro de Blockchains (mais descentralizados);
- A segunda democratiza a inteligência necessária para resolver problemas personalizados.
A Curadoria combate os limites da Gestão.
As Mentes Artificiais combatem os limites da inteligência exclusivamente humana.
Juntas, essas duas novidades aumentam significativamente nossa capacidade de administrar uma sociedade com bilhões de pessoas e níveis inéditos de singularização.
Se essa arquitetura estiver correta, a consequência torna-se inevitável.
Não basta transformar organizações.
Precisamos transformar também a formação das pessoas.
Toda a Formatação Básica Obrigatória foi construída para uma Civilização muito mais centralizada.
Agora precisamos preparar um Sapiens capaz de operar num ambiente muito mais descentralizado, dinâmico, personalizado e inovador.
Essa talvez seja a verdadeira Renascença do século XXI.
Não apenas tecnológica.
Mas conceitual.
Thomas Kuhn mostrou que mudanças profundas raramente surgem dentro dos paradigmas estabelecidos.
Na Ciência Extraordinária, os novos paradigmas costumam nascer fora das estruturas tradicionais, justamente porque ainda não cabem dentro delas.
Foi exatamente essa opção que orientou a trajetória do Nepô e da Bimodais.
A independência intelectual não foi uma escolha circunstancial.
Foi uma condição necessária para questionar as bases da Ciência Social 1.0 e propor uma nova arquitetura capaz de responder, de forma integrada, ao maior desafio intelectual do nosso tempo:
Compreender o século XXI exige separar aquilo que é inusitado daquilo que é recorrente. O inusitado explica por que o Digital é diferente. O recorrente explica por que ele era inevitável.
É isso, que dizes?































