Sabemos apenas aquilo que podemos medir; todo o conhecimento científico que temos do mundo natural depende dos nossos instrumentos de observação - Marcelo Gleiser - da minha coleção de frases;

Quem quiser estudar os planetas deve ter um telescópio; as células, um microscópio. Aliás, quanto mais potentes, melhor.

E a sociedade? A Internet? As Redes Sociais?

É preciso de uma teoria, que nada mais é do que definição dos atores influentes e o peso de cada um para alterar o processo a ser analisado.

Ou seja, se conseguirmos definir:

  • 1- quem e como os atores exercem pressão sobre o sistema;
  • 2- que tipo de fatores cada uma destas pressões resultam no processo de evolução do mesmo;
  • 3- podemos definir, então, que tipo de mudanças tivemos, temos e, provavelmente, teremos;
  • 4- o que nos ajudará, só então, a montar estratégias;
  • 5- diminuindo as chances de darmos tiros no escuro!

Na análise da Internet, a meu ver, podemos começar a rastrear um DNA sistêmico, que tenho tentado desenvolver aqui no blog, a partir de todos os “inputs” que tenho recebido nas minhas aulas, palestras, consultoria, leituras, discussões em mesa de bar, comentários em cima dos posts.

Acredito que podemos aferir, até o momento, como uma teoria 1.0 experimental, que precisa ir se consolidando, os seguintes agentes e a relação entre eles:

  • 1- o crescimento da população é o ponto de partida do sistema, que gera um aumento de demandas por produtos e serviços na sociedade. É um ponto de partida, pois não é possível mudar essa realidade, matando gente, exterminando povos, por mais que já tenham tentado. Ou seja, é um fato inapelável com uma aumento constante, cada vez maior e invisível, um fato para o qual o sistema como um todo tem que se adaptar, pois ele é  o único fator que não permite mudança no presente. Pode-se fazer planejamento familiar, mas só terá resultados futuros;
  • 2- a partir do aumento da população, são formados setores produtivos (públicos e privados) que se organizam para atender a estas demandas;
  • 3- este setor produtivo luta, batalha, influencia, compra, suborna, cria golpes para estabelecer as regras do jogo do mercado. Estabelece, assim, através de um jogo de interesses, pressões e co-relações de forças, desde monopólios, concorrência, impostos, relação de consumo, etc), além das instituições de suporte necessárias para que o jogo possa acontecer: polícia, justiça, escola, congresso, etc;
  • 4- estabelece-se, no processo, uma ideologia vigente (conjunto de premissas e ideias que passam a ser hegemônicas na sociedade), que justifica, corrobora,  a forma com que estas relação entre demanda e oferta são realizadas;
  • 5- como prerrogativa para que este modelo seja aceito, passa-se a dominar ou influenciar fortemente os principais meios de comunicação vigente para manter os “problemas” do atendimento das demandas em níveis de pressão razoáveis e  sem grandes crises, bem como, o modelo estabelecido da sociedade como um todo. Usa-se, assim, os meios de informação como canal de difusão em larga escala (e de forma repetida da ideologia vigente) para manter o “circo” funcionando.

É nesse equilíbrio fino que construímos o modus-operandi de qualquer sociedade. Na qual, os diferentes atores atuam.

Estes fatores combinados nos levam aos equilíbrios ou desequilíbrios sistêmicos sociais.

Quando uma destes fatores se altera, ou muda, em larga proporção, gera uma alteração geral no ambiente, impulsionando mudanças nos outros agentes e em todo o ambiente, com  ajustes finos ou radicais.

Sob esse ponto de vista, somos a civilização que foi formada, a partir da crise radical do aumento populacional da Idade Média.

Lá, uma população miserável enfrentou:

  • 1- o crescimento da população e o início da concentração nas cidades;
  • 2- necessidade de novos modelos produtivos “amarrados” pelo poder da Igreja e dos nobres;
  • 3- necessidade, portanto, de alteração das regras do jogo não permitiam que novos atores entrassem ou atuassem;
  • 4 – alteração da ideologia vigente, que impedia o conceito de lucro e da iniciativa privada, por exemplo, vital para a evolução do novo ambiente produtivo;
  • 5-e a forte dominação dos meios de informação e comunicação, através do não acesso às  bibliotecas (ver filmes Nome da Rosa Lutero), a linguagem culta toda em latim e a impossibilidade da circulação de novas ideias, através dos livros manuscritos, caros e difíceis de manejar, sendo que toda a dominação, se dava no modelo oral, principalmente, através dos padres na missa.

Uma situação como essa gera uma crise de inovação produtiva.

Mais população, mais demanda, necessidade de novos modelos produtivos, que precisam de dinamismo, um novo ambiente para poder criar os produtos e serviços.

Ou seja, pressiona-se o sistema como um todo para alterações no seu conjunto, visando a inovação produtiva.

O interessante que o primeiro passo para se sair do impasse, foi o surgimento de uma nova mídia: o livro impresso.

E este fato ocorre de forma espontânea e sem planejamento, sem mesmo os principais pensadores da época terem percebido a sua dimensão e importância para a solução de uma crise também invisível, pois se dava muito mais na latência interna de cada pessoa, que não tinha meios nem canais para se expressar, a não ser através de revoltas isoladas, que não compunham, por si só, revoluções com um propósito de um novo modelo.

Assim, sem nenhum tipo de articulação ou maquinação política (como ocorreu com a Internet), introduziu-se o livro impresso naquele sistema viciado e incompetente para os novos desafios,  a possibilidade da entrada de novas ideias, que passaram a circular, sem consentimento ou controle do poder vigente, através do que denominei aqui como uma mídia de oxigenação social.

(De 1450 a 1500, circularam na Europa 13 milhões de livros impressos, com mais de 27 mil títulos, uma verdadeira explosão de ideias e informação para a época.)

O que essa mídia permite, basicamente, na sua chegada é viabilizar o surgimento de novos líderes, vozes, ideias, que passam a identificar os problemas e sugerir as reformas práticas e conceituais de todo o ambiente.

A mudança da sociedade, a partir deste ponto, é uma questão de tempo e método de mobilização para a mudança, usando os novos meios, gerando uma contra-informação para se revisar toda a sociedade.

Naquele momento, se aponta uma alternativa para a solução do impasse da crise de inovação produtiva da Idade Média:

  • 1- a população continua a crescer;
  • 2- os novos setores produtivos (burguesia) estabelecem, com base no livro impresso, panfletos, livretos revoluções, que visam novas regras do jogo;
  • 3- criam um outro tipo de estado com liberdade para fazer negócios, baseada em parlamento e república;
  • 4- estabelecem uma nova ideologia, libertada de um Deus que não permitia o lucro;
  • 5- e se estrutura uma nova hegemonia em torno dos novos meios de comunicação, que começa com os jornais, depois o rádio e a tevê, que permitem, ao longo dos últimos 550 anos,  revoluções econômicas, políticas e sociais, passando a ser o lucro o centro de incentivo para estimular constantemente a inovação e atender ao aumento constante das demandas, que o aumento da população exige.

Depois destes 550 anos, chegamos a 2010.

Hoje, com o salto populacional duplicando o número de habitantes do planeta a cada 50 anos, estamos vivendo uma nova crise de inovação produtiva, similar a vivida pré-capitalismo.

Os setores produtivos por mais que tenham se repensado, criado reengenharias, se informatizado, se globalizado, na essência não mudaram a sua forma de atuar.

O modelo ainda é fortemente baseado na força dos centros, na hierarquia, no conceito do lucro sem ética, acima do interesse dos consumidores (que nunca têm razão, apesar do discurso contrário), do meio-ambiente cada vez mais violentado.

Este modelo se sustentou até aqui, impulsionados por uma forte capacidade de comunicação, desenvolvida e aperfeiçoada durante décadas (com grande carga de manipulação)  que conseguiu manter o  status-quo vigente praticamente intocado, empurrando, entretanto,  essa crise para um patamar insustentável entre o desejo das novas gerações, principalmente, com o que temos a oferecer.

(A latência por novos ares pode ser medida pela adesão da população à nova mídia, a troca de música pela rede, ao desenvolvimento colaborativo de softwares e de várias outras iniciativas no mundo. É o primeiro passo.)

Uma crise de qualidade (pois as pessoas estão querendo sempre algo melhor e diferente) como de quantidade (mais e mais pessoas para comer, se vestir, beber, etc.), com seus desdobramentos de sobrevivência, com fatores novos, como a degradação geral do planeta.

Portanto, a Internet – da mesma maneira que o livro impresso – veio, assim, ao mundo para resolver essa crise de inovação produtiva e toda a ideologia que sustenta o modelo anterior.

Veio, introduzir a Idade Digital colaborativa, da mesma maneira que tivemos a passagem da Idade Média para a Idade Mídia, visando reformular toda a sociedade, a partir de novos paradigmas, tanto do ponto de vista ideológico, com seus novos líderes e empreendedores, que criam a possibilidade, o estofo para as outras mudanças práticas em todo o sistema, como do ponto de vista prático, com novos ambientes de negócio e não apenas modelos.

Questiona-se, hoje, o conceito do lucro, da propriedade intelectual, do desenvolvimento sem sustentabilidade, do desrespeito aos colaboradores internos, dos modelos de organização do estado, da política. Há a mesma latência, que agora começa a ganhar novos canais de expressão e, mais adiante, projetos e métodos de mudança para um novo ambiente.

A pauta, talvez, seja a mesma de todos os críticos históricos do capitalismo. Mas só que agora há um ambiente de troca de ideias que não permite mais que a ideologia vigente seja propagada pela velha dominação da mídia. E o setor produtivo não consegue atender – nos mesmos moldes do pré-capitalismo – a latência de uma população cada vez mais mutante e diferenciada.

Vivemos hoje uma crise similar, a que deu origem ao capitalismo!

O mundo está vivendo, de novo, uma grande revisão civilizacional.

A nova mídia estabelece a possibilidade – pela primeira vez – da colaboração coletiva a distância, por conhecidos e por desconhecidos, um fator de impulsionamento da inovação que aponta uma saída viável para superar a crise atual dos modelos produtivos.

Esta nova opção – que não pode ser desprezada –  entretanto, cobra um alto custo de revisão de conceitos básicos de quem hoje está se beneficiando de alguma forma  na estrutura de poder vigente.

Ou seja, por um lado se quer inovação, mas a alternativa exige que se compartilhe ou mude as regras de poder. Eis o impasse do mundo 1.0 versus o 2.0!

Se o livro impresso popularizou a escrita pela primeira vez na história.

(Na verdade, o livro impresso foi a Escrita 2.0.)

Com ele, se viabilizou a troca de ideias a distância para sair de uma crise de produção.

A Internet vem criar a colaboração do muito para muitos a distância para superar em outro momento uma crise similar.

Portanto, ao terminar, como foi na Idade Média,  o controle da mídia nos moldes conhecidos, o jogo está de novo aberto. E abre-se a possibilidade de novos líderes sugerirem, terem voz e apontar os projetos do novo mundo.

(É o mesmo cometa que passa 550 anos depois. Portanto, é impossível entender a Internet sem estudar a chegada o livro impresso na sociedade.)

Ou seja, é uma mudança civilizacional, que se inicia com uma nova mídia, que vem resolver uma crise sistêmica, que só será resolvida, através da troca de ideias e da aceitação coletiva de um novo modelo social baseado na colaboração, deixando para trás a civilização anterior baseada em um estrutura uni-direcional.

Abre-se a placa de “vago” na chefia da civilização.

Espera-se uma nova classe dominante como novos conceitos colaborativos, a la Google e a la Amazon, que mostrará a saída da crise e cobrará num boleto bancário novas regras do jogo, pressionando as velhas estruturas para atender as suas novas demandas.

Ou seja, justiça 2.0, governo 2.0, congresso 2.0, escola 2.0…com uma conceito de lucro revisado, tendo um compromisso mais ético e compartilhado entre seus consumidores.

Os clientes terão mais razão do que tem hoje!

Estamos assim saindo da civilização do um-muitos, que estruturou a civilização atual e fundo as bases do capitalismo.

E passando para o muito-muitos que será o molde da nova civilização.

Um novo capitalismo?

Sim, provavelmente e até mais do que isso.

Porém, qualquer prognóstico nessa direção agora seria profecia.

É bastante provável, entretanto, que estejamos no primeiro passo de um novo sistema político, social e econômico, que deve ter como base o dinamismo para resolver a atual crise de inovação produtiva, fazendo, de novo, o mundo girar –  de forma diferente para cada país, ou região e mesmo classe social –  mais girar diferente.

Tudo na direção de ajudar a manter viva as 7 bilhões de almas humanas do planeta, que não param de copular e crescer.

Que dizes?