Quanto mais controle da informação, mais a realidade vai virando ficção – Nepô – da minha coleção de frases;

(Ainda refletindo depois do rico Workshop que coordenei semana passada na Petrobras.)

Lá pelas tantas, surge a questão:

“Como vamos nessa empresa 2.0 (tema do encontro) organizar a informação. É bom lembrar que uma empresa precisa de informação estruturada!”

Uma tema pra lá de interessante, pois vivemos hoje uma macro-crise informacional, que a Internet está tentando ajudar a minimizar.

Qual é a crise?

Excesso de informação.

Foi esse o motivo que levou pesquisadores depois da II Guerra a criar a Ciência da Informação, que veio tentar ajudar a colocar teorias, conceitos e formar profissionais para lidar com esse problema.

A área veio na aba de Paul Otlet, que defendia que a informação deveria estar a serviço das necessidades dos usuários.

Paul Otlet

Assim, ao nos perguntarmos para onde vai a Gestão da Informação nas empresas, é fundamental que coloquemos a pergunta da perspectiva certa.

O que os usuários querem hoje e  como vamos atendê-los?

Nossa macro-crise de excesso de informação  é um processo crônico, desde que o ser humano apareceu na terra, agravado pelo aumento da população, que cresceu seis vezes nos últimos 210 anos.

Assim, as soluções encontradas, hoje, ontem (e serão amanhã) são sempre as mesmas: novas tecnologias e novas metodologias para lidar com essa informação aos borbotões.

A Internet, que é o modelo vigente para superar a crise, tem nos mostrado que:

- não dá mais para ter alguém controlando os fluxos;

- o usuário tem que ajudar a classificar a informação, dando de forma voluntária e involuntária “vida” a ela;

- a recuperação não pode mais ser feita, a partir de bases arrumadas por alguém, mas através de ferramentas cada vez mais inteligentes que incorporam o trabalho dos antigos “gatekeepers” (protetores dos dados, numa tradução bloguiana), passando o serviço para uma Inteligência cada vez mais artificial, baseado na Inteligência Coletiva de quem usa.

Quais fatores nos levam para essa mudança radical?

  • O volume da informação x o tempo de consumo da mesma (muita areia para pouco caminhãozinho);

Ou se inventa uma outra forma de se lidar com tudo isso, ou o usuário fica parado sem conseguir produzir e viver.

Portanto, a ideia de que na Internet teremos uma desestruturação, mas nas empresas será diferente, me parece um mito, um sonho dos tecnofóbicos.

O que deve ser perguntado é:

A desestruturação da Internet está minimizando o problema dos usuários?

O Google é eficiente?

Se eu colocar um Google na empresa resolve ou minimiza o problema?

Vejam que nas empresas temos um problemão nessa direção.

As informações não são estruturadas, como se gostaria, pois as pessoas vão produzindo a sua maneira, que é uma característica humana, ainda mais de quem não tem tempo.

E fica o pessoal da informação correndo atrás para mudar o que não vai se conseguir mudar.

Ao se tentar implantar uma busca a “La Google”, por exemplo, a coisa falha.

Sabe por que?

O Google recupera com qualidade, a partir das “dicas” involuntárias dos usuários, ao clicar e navegar.

Um Google em um lugar que não há clique de usuário para saber o que é mais relevante, é simplesmente um nada.

É uma ruputura no conceito de classificação e recuperação.

A ideia toda que fez o Google ser o que é foi a virada cognitiva fundamental para resolver o impasse informacional do século XXI.

Se o usuário não entrar na roda, ajudando a classificar a informação  cada vez mais, babau total no mingau! :)

O impasse da gestão da informação das empresas, assim, a meu ver passa a ser:

  • - a maneira de pensar dos profissionais da informação, que estão com a cabeça pré-internet;
  • - a necessidade de se implantar – urgente – bases de dados colaborativas, nas quais os usuários possam ver tudo e clicar em tudo para ganhar relevância (sugiro ler este post);
  • - e colocar um “Google” para “estruturar” de uma nova maneira, não da maneira passada, com um gestor, mas agora com milhares deles.

(Obviamente, que é possível, como sempre foi, ao se cadastrar um documento ter formulários (até com taxinomia) que permitam ajudar, ao máximo, o “Google corporativo”, mas isso tudo é colocado também à disposição do usuário para ajudar.)

O profissional da informação 2.0 deixa assim de ficar olhando documentos, estruturas e passa a se preocupar com comunidades, robôs e melhorar os algoritmos para que as buscas estruturantes sejam cada vem mas eficazes.

É outra maneira de agir e pensar, mas com o mesmo objetivo do velho e visionário Otlet: ajudar à sociedade a lidar da melhor maneira possível com essa massa informacional.

Concordas?

Diário de blog: já trabalhei aqui questionando o conceito de Gestão da Informação.; Trabalho no conceito apenas para lembrar que estamos migrando para outra coisa. Acredito fortemente que o pessoal de conhecimento, informação, tecnologia, comunicação interna, qualidade devem estar trabalhando cada vez mais juntos. O termo macro-crise da informação é novo, pois é fruto do caminha da minha tese, que, se tudo der certo, fica pronta em março de 2011.