Resumo do artigo feito pelo Tio Chatinho:
O texto apresenta o aprimoramento conceitual da Teoria Bimodal por meio de duas reflexões complementares: uma fenomenológica, que redefine o papel da tecnologia ao distinguir ferramentas corporais (que ampliam a força física) de ferramentas mentais (focadas em comunicação, cálculo, memória e, crucialmente com o computador, o inédito processamento de dados fora do cérebro humano); e uma ambientológica, que propõe que a análise da macro-história e do futuro não deve tentar adivinhar as ofertas conjunturais específicas (produtos, empresas ou tecnologias), mas sim identificar as demandas estruturais geradas pelo aumento da complexidade demográfica — forças que inevitavelmente pressionam a sociedade em direção à descentralização, à potencialização dos indivíduos e à singularização.
Vamos ao Artigo:
“Nós moldamos nossas ferramentas e, depois, nossas ferramentas nos moldam.” – Marshall McLuhan.
A Teoria Bimodal está passando por um processo contínuo de aperfeiçoamento conceitual. Isso faz parte da jornada de Conceituação Mais Forte.
Nosso objetivo, ao longo de mais de duas décadas de pesquisa, tem sido compreender melhor o Sapiens, sua trajetória histórica e, particularmente, a atual Renascença Civilizacional provocada pela chegada do Mundo Digital.
Nesse percurso, procuramos identificar quais são os Paradigmas Estruturais mais adequados para compreender as grandes mudanças da sociedade.
Isso faz parte do Formacionismo 2.0 – uma proposta de preparar o Sapiens de nova forma para entender o atual e o cenário futuro.
Recentemente, avançamos em duas reflexões que merecem ser compartilhadas com os alunos da Escola Bimodais e com quem acompanha nosso trabalho.
- A primeira é Fenomenológica: melhora nossa compreensão sobre o papel das tecnologias na história humana;
- A segunda é Ambientológica: melhora nossa compreensão sobre como um Conceituador Forte deve analisar a Macro-História e procurar antecipar o futuro.
São duas novidades diferentes, mas complementares.
- A primeira aperfeiçoa o mapa que utilizamos para compreender o fenômeno;
- A segunda aperfeiçoa a maneira pela qual construímos e utilizamos esse mapa.
- Novidade Fenomenológica: Tecnologias Corporais e Tecnologias Mentais
Uma das principais referências da Ciência da Inovação Bimodal é a Escola de Toronto, tendo como personagem principal Marshall McLuhan.
Ele nos ajudou a perceber algo que boa parte do Formacionismo 1.0 não incorporou adequadamente: as tecnologias são ferramentas de sobrevivência.
Somos uma Tecnoespécie, pois diferente das demais espécies, que sobrevivem se relacionando com o ambiente, o Sapiens cria tecnologia para que isso seja possível.
Uma espécie que não apenas utiliza tecnologias, mas que se transforma continuamente a partir delas.
Até aqui, utilizávamos uma síntese inspirada em McLuhan:
Mudou a mídia, mudou a sociedade.
Essa formulação precisa de um ajuste, pois nossas reflexões recentes sugerem que podemos subir um andar na capacidade de análise.
Nem todas as tecnologias potencializam as mesmas capacidades humanas.
Podemos separar as tecnologias em duas grandes famílias, que potencializam o sapiens de maneira distinta.
- As Tecnologias Corporais potencializam as capacidades do corpo;
- Já as Tecnologias Mentais potencializam as capacidades da mente.
Exemplos de Tecnologias Corporais:
- Uma pá amplia nossa capacidade de cavar;
- Um automóvel amplia nossa capacidade de deslocamento;
- Uma máquina industrial amplia nossa força, velocidade e precisão;
São tecnologias que funcionam como órteses corporais.
O mesmo dizemos das Tecnologias Mentais:
- O ábaco nos permitiu calcular melhor;
- A escrita nos permitiu armazenar o que era dito;
- O Digital criou a inédita capacidade de processar informações.
E essa distinção é especialmente importante porque a mente é o grande diferencial competitivo do Sapiens.
Nossa capacidade de criar conceitos, nos comunicar, desenvolver narrativas, registrar experiências, processar informações e organizar a cooperação depende fundamentalmente das Tecnologias Mentais.
Assim, podemos dizer:
Tecnologias Corporais ampliam aquilo que nosso corpo consegue fazer. Tecnologias Mentais ampliam aquilo que nossa mente consegue fazer.
E podemos avançar mais um pouco.
Dentro das Tecnologias Mentais, identificamos pelo menos quatro grandes funções:
Comunicação, Calculagem, Memória e Processamento.
As Tecnologias Mentais Comunicativas ampliam nossa capacidade de transmitir e receber informações.
Os gestos, a oralidade, a escrita, a imprensa, o rádio, a televisão e a Internet participam, de diferentes maneiras, desse processo.
As Tecnologias Mentais de Calculagem ampliam nossa capacidade de realizar operações matemáticas.
Instrumentos como o ábaco e as calculadoras mecânicas permitiram terceirizar progressivamente operações que antes dependiam da capacidade humana de calcular.
Essa ampliação foi fundamental para lidar com quantidades, medidas, registros comerciais e problemas matemáticos cada vez mais complexos.
As Tecnologias Mentais de Memória ampliam nossa capacidade de armazenar informações fora do cérebro.
A escrita representa aqui uma mudança civilizacional decisiva, bem como a gravação de áudio e vídeo, que nos permitiu memorizar o imemorizável, anteriormente.
Antes dela, grande parte da memória coletiva dependia da capacidade humana de lembrar e transmitir oralmente conhecimentos e experiências.
Com a escrita, passamos a terceirizar parte da memória humana para suportes externos.
A imprensa ampliou radicalmente a reprodução e a circulação dessa memória.
Por fim, temos as Tecnologias Mentais de Processamento de dados.
E aqui aparece a grande novidade trazida pelo computador.
É a primeira vez que temos Tecnologias Mentais, que nos permitem processar dados fora da mente humana.
É uma função que era exclusiva da mente humana, que agora ganha a possibilidade de ser feita por máquinas.
Podemos dizer que a Civilização 2.0 é filha justamente da chegada das Tecnologias Mentais Processadoras, que nos permitiu dar um upgrade no armazenamento, na calculagem e na comunicação.
Antes do computador, já existiam instrumentos capazes de realizar operações matemáticas e algumas operações automatizadas sobre informações.
Porém, com o computador programável, passamos a terceirizar progressivamente uma variedade muito maior de operações mentais.
A diferença é importante.
Calculagem é uma modalidade específica de processamento. Processamento é uma categoria mais abrangente, que inclui operações matemáticas, lógicas, classificatórias e outras formas de transformação de informações.
O computador não apenas calcula.
Ele compara, classifica, organiza, relaciona e transforma informações a partir de instruções programadas.
Essa mudança é qualitativamente diferente.
O computador não é apenas uma nova mídia ou uma calculadora mais potente.
Ele é uma Tecnologia Mental capaz de executar diferentes modalidades de processamento que antes dependiam predominantemente da atividade cognitiva humana.
Isso nos permite compreender melhor por que o Digital representa uma mudança tão profunda.
Não estamos apenas diante de novas formas de comunicação, processamento, memória ou calculagem.
Estamos diante de tecnologias que ampliam e externalizam capacidades cada vez mais sofisticadas da mente humana.
- Novidade Ambientológica: o Conceituador Forte analisa demandas, não ofertas
A segunda novidade é de outra natureza.
Não estamos mais discutindo diretamente o fenômeno tecnológico.
Estamos discutindo como devemos analisar a história e quais são os limites das nossas previsões sobre o futuro.
Aqui entra uma distinção fundamental:
Demandas Estruturais e Ofertas Conjunturais.
Quando observamos o futuro, existe uma tentação permanente de tentar antecipar quais serão as novidades que aparecerão.
Como serão os restaurantes daqui a cinquenta anos?
Como serão as escolas?
Como serão as empresas?
Quais plataformas existirão?
Quais tecnologias serão utilizadas?
Quais produtos e serviços dominarão o mercado?
Essas são perguntas sobre as ofertas futuras.
No curto prazo, podemos fazer previsões relativamente consistentes sobre algumas delas.
Porém, quanto mais avançamos para o médio e, principalmente, para o longo prazo, mais difícil se torna prever as ofertas específicas.
Tentar descrever detalhadamente as tecnologias, empresas e instituições que existirão daqui a cinquenta ou cem anos nos aproxima muito mais da astrologia do que de uma investigação científica consistente.
Existem variáveis conjunturais demais.
Questões políticas, econômicas, culturais, institucionais, geográficas e tecnológicas se combinam de maneiras impossíveis de antecipar integralmente.
O Conceituador Forte precisa trabalhar de outra maneira.
O Conceituador Forte não procura prever as ofertas do futuro. Procura identificar as demandas estruturais que pressionarão as ofertas do futuro.
Essa é a principal novidade ambientológica.
A pergunta deixa de ser:
Quais soluções vão aparecer?
E passa a ser:
Quais problemas precisarão ser resolvidos?
Isso muda radicalmente nossa maneira de observar e projetar a Macro-História.
Na Teoria Bimodal, temos defendido que o aumento da Complexidade Demográfica é uma das principais forças estruturais da trajetória humana.
Quanto mais pessoas e maior a diversidade, mais complexa se torna a cooperação.
Os Modelos de Cooperação existentes passam a enfrentar dificuldades crescentes para lidar com essa complexidade.
É nesse contexto que surgem demandas estruturais por novas formas de organização.
Nossa hipótese é que essas demandas caminham em três direções principais:
Descentralização, Potencialização e Singularização.
A Descentralização aparece como resposta à dificuldade crescente de coordenar sociedades complexas através de estruturas excessivamente centralizadas.
Quanto mais decisões são transferidas para as pontas, maior passa a ser a necessidade de Potencialização das pessoas.
Elas precisam desenvolver capacidades para assumir mais responsabilidades e tomar decisões com maior autonomia.
E, quanto mais potencializadas e autônomas se tornam, maiores são as possibilidades de Singularização.
Cada pessoa passa a ter mais condições de construir trajetórias próprias, adequadas às suas características, necessidades e potencialidades.
Podemos sintetizar essa hipótese:
↑ Complexidade Demográfica → ↑ Demanda por Descentralização → ↑ Demanda por Potencialização → ↑ Demanda por Singularização.
É importante compreender que estamos falando de demandas, não de resultados automáticos.
Uma sociedade pode precisar de mais Descentralização e, durante determinado período, caminhar para maior centralização.
Pode existir uma demanda crescente por Singularização e, ao mesmo tempo, instituições insistirem em modelos massificados.
As demandas estruturais podem encontrar resistências, atrasos e movimentos contrários.
Nossa hipótese é que, no longo prazo, os Modelos de Cooperação que responderem melhor a essas demandas terão vantagens funcionais para lidar com a crescente Complexidade Demográfica.
E aqui está a principal contribuição dessas duas reflexões.
- A novidade fenomenológica nos ajuda a compreender melhor o que muda na capacidade tecnológica do Sapiens;
- A novidade ambientológica nos ajuda a compreender melhor o que podemos e o que não podemos antecipar sobre as consequências dessas mudanças.
No fundo, o desafio do Conceituador Forte não é descrever detalhadamente o mundo de amanhã.
É construir paradigmas suficientemente consistentes para compreender as forças que pressionarão a construção desse mundo.
Não sabemos quais serão as ofertas do futuro. Mas podemos investigar, com cada vez mais precisão, quais demandas estruturais estarão esperando por elas.
É isso, que dizes?
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