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 As redes sociais cívicas são aquelas que dão vazão ao desejo humano de ajudar a mudar o mundo – Nepô (inspirado pelo Shirky);

O principal mérito do último livro de Shirky (A Cultura da Participação), escolhido por mim como um dos melhores do ano, levanta algumas questões interessantes.

O conceito principal até aqui foi o excedente cognitivo.

(Estarei discutindo este livro do Shirky em setembro, mais detalhes aqui.)

Em resumo, excedente cognitivo, segundo ele, é o tempo que as pessoas de dedicam a fazer coisas, além de trabalhar, lazer, tocar a vida.

Algo que nos tira da frente da televisão, basicamente.

Separa o uso desse excedente em projetos cívicos, que alteram coisas na nossa vida e aqueles que nos mantém no mesmo lugar.

O que reforça que nem toda a inteligência coletiva vem para mudar, pode vir também para manter-nos iludidos e oprimidos!

E sobre projetos que nos mantêm no mesmo lugar, cita em particular os seguidores de séries de tevê.

Se colocasse o termo “Inteligência Coletiva” de Pierre Lévy no meio, podemos dizer que seria a criação de inteligência coletiva para mudança ou para a manutenção do status quo.

Shirky ainda lembra que a sociedade, ao crescer a população, cria situações de extremo sofrimento (lembra o surto de gim na Europa, 1720, com o aumento das cidades)  e que a sociedade tende, no primeiro momento a se entorpecer e depois vai criando canais de participação.

Para transformar sofrimento em ação e da ação para mudanças que reduzam o sofrimento.

A Web, nessa direção, viria, segundo ele, propiciar  redução radical de tempo necessário e custo para as pessoas trocarem, se articularem, como se fosse uma nova mídia em que a latência por mudanças começa a ter espaço para virar excedente cognitivo que agora pode desaguar na direção das mudanças sociais.

A partir de Shirky, podemos pressupor que há diferentes momentos de mais ou menos consciência e espaço de mudanças, individuais ou coletivos:

  • Sobreviver em condições não confortáveis, que gera latências;
  • O que gera distração alienante para suportar o sofrimento de não ter canais para mudar a realidade;
  • O que causa mais sofrimento acumulado, angústia, alienação e vontade de mudar.

Para que isso ocorra é preciso realizar atividades extras, fora trabalho e lazer para construir um caminho futuro. E com esse excedente cognitivo preparar a mudança de “A” opressor para “B” menos opressor.

Esse tempo que dedicamos a mais, como o pessoal que vai estudar de noite, depois do trabalho, no caso individual. Ou no coletivo quem vai para reuniões de condomínio, de bairro, de partidos, seja lá o que for, está dedicando um tempo a mais para que haja uma mudança, não só individual, mas coletiva.

Só podemos mudar, assim, se criamos tempo para isso, reduzindo ou o dedicado à sobrevivência (nem sempre possível) ou da distração tóxica que tenta aplacar as angústias de uma vida coisificada sem processo, voltado para atividades, ou vícios, que nos alienam mais e mais.

(O AA é um exemplo típico de um grupo cívico para sair de uma situação de não-mudança, por exemplo.)

Coletivamente, é preciso ou um esforço ou uma redução do tempo/custo de articulação.

A rede digital, que viabiliza uma revolução cognitiva. vem se colocar como alternativa à televisão e criar um espaço de construção de um espaço de soma de excedentes cognitivos.

Algo como, ele diz:

Os americanos assistem TV durante cerca de 200 bilhões de horas por ano, mais ou menos 2 mil projetos na Wikipédia;

Shirky lembra que essa geração é a primeira que tem visto menos televisão do que os pais.

E que o tempo que se fica na Internet é a possibilidade de criar estes canais para articular excedentes cognitivos que realmente mudem e reduzam sofrimento, através de projetos cívicos e que não necessariamente todos os projetos na rede têm esse caráter.

O interessante, isso são as minhas digressões, é que uma revolução cognitiva faz com que todo o planeta, de diferentes maneiras, comece a ganhar esse tempo para propor mudanças e resolver problemas insolúveis antes das novas possibilidades.

Abrindo espaço da migração da civilização analógica 1.0 para a digital 2.0.

É a revisão possível dos problemas mais estruturais da civilização que agora podem ser questionados e alterados, sob um novo canal de troca e de possibilidade de fazer as mesmas coisas de outro jeito.

O excedente cognitivo, digamos assim,  pode ser mantendedor ou alterador do mundo.

Vai de vários jovens perderem semanas discutindo o fim do Harry Potter sem alterar nada a sua vida e seus sofrimentos, apenas anestesiando-os. Ou criar uma estrutura que garanta uma escola melhor.

Uma coisa não exclui à outra naturalmente, mas o ideal que seja algo equilibrado.

Quando é uma coisa só, tanto de um lado quanto de outro, há problemas.

É um assunto que dá muitas telas de texto.

A ver.

(Estarei discutindo este livro do Shirky em setembro, mais detalhes aqui.)

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