Feed on
Posts
Comments
  • Um Estado em cuja gestão se instala por muito tempo um grande déficit de conhecimentos históricos já não pode ser conduzido estrategicamente – Guy Debord – da minha coleção de frases.

Não lembro bem do filme.

Era francês e vi em uma mostra na PUC-RJ no início dos anos 80.

(Descobri o nome: Les belles de nuit. 30/06/09)

O argumento era de um cara que adorava dormir e quando acordava queria voltar para o sonho.

O real o incomodava demasiado.

Trocava a realidade pela cama.

O tema, na verdade, recorrente na literatura e no cinema é um pouco a luta humana entre a razão e a loucura.

Em estar presente e ausente.

Em aceitar o fardo da vida ou escapar dela de alguma maneira.

Estamos vivendo aonde exatamente?

Matrix é talvez o filme que melhor tenha trabalhado esse mundo digital em rede.

Nele, supostamente vivemos em óvulos dormindo, jogando nossa energia para um ambiente informacional, no qual as máquinas nos dominam e não nós dominamos as máquinas.

Essa verdadeira tara bem disseminada e estimulada ao mundo digital, que nos leva a ficar 24 horas por dia plugados, via celular, Ipod, laptop, desktop, etc…está começando a nos colocar em Matrix, ou no sonho do nosso diretor francês.

A loucura individual nos leva a teorizar e começar a achar que o que acontece na rede já é algo tão importante do que o que acontece na nossa vida debaixo do céu azul ou com nuvens.

O vento na cara é substituído pela luz do monitor.

No passado, eram os apaixonados pelos livros que viviam horas enfurnados em uma biblioteca.

Ou os “off-line” que sonhavam acordados, como continuaremos sempre.

O imaginário, não precisa de tecnologia, para se desplugar da vida.

(Tanto que todo o trabalho de terapia oriental foca na respiração, que é um canal entre você e o mundo concreto à sua volta. Quem está no mundo da lua, geralmente não respira direito.)

O máximo da loucura, da falta de leitura histórica,  é o conceito lançado semana passado do “novo socialismo” que a Revista americana Wired publicou, sobre o qual jornalistas e blogueiros brasileiros já saldaram como algo interessante.

Já comentei ontem que é uma viagem a outro planeta, uma demência total.

E mais: já dou o antídoto: O Homem Faz-se a Si Próprio,  livro de Childe, tem um  post sobre o tema que escrevi.

Vejam o quadro do que Kevin Kelly, da Wired, considera marcos do “socialismo na história”:

socialismo_tabela

Na literatura dos historiadores que estudam a influência das tecnologias de comunicação no mundo (Lévy, Burke, Chartier, etc vejam uma boa lista aqui nas referências bibliográficas.) há uma boa discussão sobre isso do papel das mídias no social.

A maioria, entretanto, considera que as tecnologias  podem influenciar mudanças sociais, possibilitam novo suporte para novas idéias, mas ficam por aí.

O livro, segundo eles, foi fundamental para a Revolução Francesa, para a Reforma Protestante, para o Revolução Americana, Russa, mas não as determinou, viabilizou.

Há, assim, os revolucionários da forma (aqueles envolvidos em melhorar as tecnologias, como Gutemberg, Linus, Gates, Jobs, etc) e aqueles que se apoderam dos meios para mudar o social, fora do ambiente informacional (Lenin, Guevara, George Washington, Robespierre, etc).

Revolucionários tecnológicos e Revolucionários sociais.

Note que na tabela da Wired mistura @lhos com e-bug@lhos.

O Linux, a Amazon, o Youtube entram no mesmo saco da revolução cubana ou soviética!!!

Há relação entre os ambientes de informação e estes fenômenos, sim existem, mas são meios, se Fidel e Guevara não tivessem subido a Sierra Maestra com armas e idéias, babau.

Não adiantaria panfletos subversivos, como acabou acontecendo na Bolívia logo depois, onde Guevara foi morto, sem que a população soubesse de muita coisa.

É, do ponto de vista de quem estuda o fenômeno histórico, algo completamente absurdo misturar forma (canal) com conteúdo (mudança social).

Vejam que Hitler usou o rádio e o cinema para incentivar as massas pelo nazismo, o poder de um sobre todos, muito pouco colaborativo, apesar de midiático.

Já Hugo Chávez – outro que abusa da mídia – usa a televisão para doutrinar os venezuelanos (com horas de discursos intermináveis) e luta de forma autoritária contra vozes discordantes.

Pior ainda na tabela da Wired é considerar a eleição de Lula algo importante para o socialismo do planeta, do ponto de vista da ampliação da colaboração.

Acho que eles não leram os blogs locais – estamos bem mal das pernas no campo colaborativo.

Lula, apesar de uma origem de esquerda, tem feito um Governo completamente 1.0, se tanto.

Popularidade não quer dizer “colaboratividade”.

Não dá entrevista, não estimula a participação do cidadão no Governo, foca seu uso da mídia em um programa de rádio um para muitos, sem direito a comentários.

O orçamento participativo que era a grande novidade do PT nos municípios não serviu para o seu Governo no âmbito federal, pelo contrário.

O Cientista Político Chico de Oliveira, eleitor do PT, e hoje dissidente, disse ao Jornal Valor, em 27/05/09, por exemplo,  avalia que há  redução do Espaço Político da Sociedade na Era Lula:

” (…) vivemos na gestão dele  uma regressão política, porque no Governo Lula houve uma diminuição do grau de participação popular na esfera pública”.

O Lula é totalmente 1.0, apesar de estar na lista Wired da História do socialismo no mundo!!!

A colaboração é uma coisa. O socialismo é outra. A mídia é uma coisa. O seu uso é outra.

Os nazistas foram bem colaborativos entre eles para promover o Holocausto, não foram?

A mídia não fará nenhum revolução ou evolução, mas as pessoas que a usarem para compartilhar ou se perpetuar no poder.

Costumo dizer que boa parte da literatura americana – ainda mais na área de tecnologia – é a-histórica, a-científica, totalmente confusa, pois quer entender fenômenos sociais com a dimensão da Internet com óculos de perto e nunca com telescópios, a partir do passado.

E não é por falta de livros em inglês!!!

Leiam, por exemplo,  “The Printing Revolution in Early Modern Europe” (link do Google Books), de Elizabeth Eisenstein, da Universidade de Michigan, um estudo da influência do livro na sociedade. É um início. Chegou esta semana aqui, comprei da Amazon.

Todo cuidado é pouco! Não engula o anzol e chumbada que estão sendo jogadas no nosso laguinho periférico tupiniquim!!!

Assim,  não façamos da Internet uma droga, mas um remédio, usando-a e pensando-a na dose correta.

Não será a ela – por ela mesma – a mudar o mundo, mas pela nossa capacidade de compreendê-la e  usá-la para a ampliação do espaço humano no nosso planeta.

Concordam?

Mais sobre o tema.

3 Responses to “A Internet é uma droga?”

  1. luizramos2009 disse:

    Carlos,

    Essa Tábua de Evolução do Socialismo citada em seu blog e que inclui personagens contemporâneos nossos, faz-me lembrar de trechos do livro de Kevin Kelly, Out of Control
    ( http://www.kk.org/outofcontrol/contents.php ):

    Kevin Kelly
    Out of control
    “…
    Chapter 16: THE FUTURE OF CONTROL

    We might continue to apply additional formulas of physical rules, such as elasticity, surface tension, and spin effects, and code them into the environment. As we increase the complexity of these artificial environments, they become fertile ground for synthetic life.

    The best way to fake a living creature, Prusinkiewicz found, is to grow it. The laws of growth he has extracted from biology and then put into a virtual world are used to grow cinematic trees and flowers. They make a wonderfully apt environment for dinosaurs or other digital characters.
    …”
    Assim, conforme se aumenta a complexidade desses ambientes artificiais, eles se tornam campo fértil para vida sintética. Desse modo, por analogia, verdadeiros dinossauros são criados e manipulados por vontade de alguém , a partir de dados em mundos virtuais. A mídia e Maquiavel têm seu papel nessa história.

    Abraços

    Luiz Ramos

  2. cnepomuceno disse:

    Luiz,

    E – depois de muita fumaça – sai uma pizza digital quentinha..;)

    Valeu a visita,

    Nepô.

    PS – boa dica de livro.

Leave a Reply