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Somos uma possibilidade em movimento constante Nepôda safra 2011;

Até aqui, pelas interações que pude ter e apreender delas posso observar que o ser humano é formado por três movimentos em conflito, bem embolados, como se fosse uma bola de massinha com cores misturadas.

  • Uma essência – aquilo que viria na placa mãe, nossa genética, tendência a perceber às coisas;
  • Um padrão civilizatório – que é essa nossa essência em contato com nossas condições de vida: família, bairro, escola, irmãos, amigos, país, idioma;
  • E uma consciência – que nos permite “olhar de fora” nossos padrões e essência, formada por nossa cognição e afeto.

O interessante é que estas três forças estão em movimento, conforme a vida que levamos, os problemas que temos, as pessoas com quem lidamos.

São taxas que variam, conforme a qualidade pior ou melhor dos ambientes e de como lidamos com a sobrevivência, os abusos sociais, etc.

Humor, satisfação, capacidade de nos sentirmos para cima ou para baixo.

A consciência seria assim, em essência, uma ferramenta de auto-conhecimento mutante, pois não podemos dizer NUNCA que chegamos a um limite da mesma, pois nunca vivemos tudo que temos para viver, até a morte.

Não nos testamos, nem interagimos com situações que ainda temos para interagir, que podemo nos levar a novas descobertas.

Somos uma possibilidade em movimento constante com nossa capacidade de deixar o resultado em aberto ou fechar o dito cujo.

As pessoas mais conservadoras são aquelas que já pediram a conta e vivem uma vida regrada, controlada, sem entrar em contato com o novo, justamente para manter a sua noção da realidade e de si mesmo inalterada.

Os mais inquietos estão sempre pensando na saideira, se relacionando com fatos novos e repensando a sua noção de realidade.

São dois opostos em qualquer sociedade, dois pólos.

Porém, ambos podem viver situações inusitadas que os tiram do eixo e os faz repensar a noção tanto de realidade e de si mesmo.

Exemplos.

Uma pessoa acha que se conhece – forma uma fronteira do que acha que ele é, porém, se perde um pai/mãe de forma trágica,  ou perde/ganha um filho, sabe que está com uma doença terminal ou vive algo traumático, ou muda de parceiro/parceira num relacionamento, é demitido e começa algo completamente novo está prestes a descobrir lados novos, a se repensar.

O que era consolidado “eu sou assim” e penso “o mundo desse jeito”.

É abalado.

Somos o que vivemos e o que conseguimos apreender e sentir e elaborar dessas vivências.

Podemos também começar um processo terapêutico ou espiritual novo que vai levá-lo a ver determinadas percepções de sentir, perceber coisas que não percebíamos antes, reformulando nosso conceito do “ser”.

Assim, na turma houve um questionamento sobre o estar.

Argumentaram que não podemos dizer que estamos, pois existe um “ser”, uma essência que está lá, independente de nós, que não a conhecemos, mas existe, como se fosse algo dado, palpável.

Como se estivesse sempre lá e nós andamos naquela direção do conhecimento pleno.

Agora sim estou mais perto da “minha verdade”.

Nós não nos conhecemos, mas somos algo que existe (uma verdade)  e podemos, através de algum método, chegar nela, podendo alguém com mais sabedoria tê-la atingido antes de nós, tal como um guru, um santo, um iluminado.

Tal fato, me levou a me conscientizar – depois daquele debate –  que essa visão de nós mesmos como algo que “existe” e precisamos chegar lá é uma percepção de nós, assim, como vemos a realidade.

Uma coisa leva a outra.

Nós e a realidade somos “praias” que podem ser visitadas.

Ou seja, transferimos para nós mesmos a maneira que vemos a realidade e aí temos duas opções, a realidade existe, é um sistema fechado e vamos chegar lá um dia, que é o senso comum.

Ou a realidade pode até existir, mas nunca conseguiremos fechar a conta, que é um senso incomum.

Este foi meu salto quântico, uma coisa leva a outra, naturalmente!!!

Não é possível achar que nós somos mutantes e a realidade não é, ou vice versa.

Somos o que pensamos.

Assim, se pensamos que a realidade existe, nós existimos e podemos nos conhecer ou a realidade como uma possibilidade, através de um caminho de descoberta finito e fechado.

O que nos levaria a um sistema fechado de conhecimento e não aberto.

Alguns vão chegar lá e outros não.

Ou talvez eu já tenha chegado a meio caminho e aquele ainda não começou, etc…

 

Porém (vou de Marcelo Gleiser, adaptando-o):

A realidade é histórica e nós somos históricos, sempre teremos uma visão parcial de nós mesmos pelos “instrumentos” que temos para nos perceber e pelas interações que tivemos até aqui seja com pessoas, fatos, situações, mudanças, etc.

Isso nos remete à discussão sobre o que é, então,  a realidade.

Gleiser tem colocado essa questão de forma clara e lógica.

(Já resumi bem os pensamentos deles aqui.)

Ele afirma que o ser humano é impotente em relação à realidade, pois nós nunca conseguiremos chegar a ela, pois para medi-la (conhecê-la) precisamos de instrumentos e de pessoas que consigam usar teorias, métodos e ferramentas de forma cada vez mais criativa.

Os instrumentos e as pessoas criativas são históricas.

Podemos ter grupos criativos – como estamos tendo – que nos faz repensar a realidade a cada tempo.

Ou grandes gênios que fazem sínteses em cima de trabalho de outros que ninguém ainda conseguiu fazer.

(Vide Einstein.)

O que nos leva a afirmar que a realidade sempre será histórica.

E, portanto, há uma impotência humana.

Não conseguiremos nunca fechar a realidade.

A realidade é um problema em aberto e sempre será para a nossa espécie.

Qualquer afirmação sobre ela – e sobre nós mesmos- estará nos levando a ter dificuldades ainda maiores de percebê-la.

Dentro da percepção histórica possível.

O nosso conhecimento sobre nós mesmos, sempre será parcial e não temos como fechá-lo, não podemos definir nossa essência, nossos padrões ou nossa consciência, pois sempre estaremos revendo cada um destas partes, ou outras que vamos conhecendo pelo caminho.

Quando alguém, assim, diz que é isso ou aquilo e fecha determinada questão, simplesmente ele está saindo do processo de auto-conhecimento, cristalizando uma realidade, criando um espaço conservador de como vê a si mesmo e o mundo.

Passando a agente de conservação de uma dada realidade, muitas vezes uma realidade interessada pelos apelos históricos de uma dada época.

Ou por dificuldades pessoais de estagnar em determinada etapa da vida, na qual o mundo precisa fazer sentido para mim nesse momento.

E me fecho em uma concha de uma realidade fechada.

Tal visão de si e da realidade, entretanto, tem uma consequência para um mundo colaborativo que estamos entrando.

Dificulta a colaboração e os diálogos honestos, pois parte-se do princípio que quando sentamos para colaborar e trocar há algo em aberto, uma troca que nos levará a algo inesperado e não conhecido.

Quando dialogamos – e as empresas estão nesse discurso com as redes sociais – eles querem impor o seu mundo fechado, sua visão da realidade pré-definida e não construir outra problematização, a partir do diálogo.

Ou seja, é um monólogo fechado, que finge-se de aberto, pois quem chega para conversar vem com uma concepção de si mesmo e da realidade fechada.

Impossível para a interação honesta.

Tal visão cristalizará a realidade, a si mesmo e, por tendências,  as outras pessoas e os conceitos.

Algo que se estabiliza, como um sistema que se perpetua e essa percepção dela mesma e do mundo dificulta as relações humanas, pois viver é algo em aberto por mais que vamos construindo um rastro provisório.

Quem fecha, passa ao monólogo.

Ponto.

Sempre há pontos novos, a partir do que conhecemos e do que o mundo conhece sobre si mesmo, como as novas descobertas sobre o cérebro, na qual muitas doenças afetivas têm fundo químico, por exemplo.

E este é ponto que nos leva a repensar  nossa chegada – acreditando numa realidade e nós mesmos como algo fechado.

Num mundo 2.0 temos mudanças mais velozes, de mais colaboração,  com a criação de inteligência coletiva mais emergente precisamos repensar nossa relação com a realidade e nós mesmos como sistemas abertos.

Como uma problematização que não se fecha, pois nunca terá fim.

Não existe uma essência ou um padrão passível de serem conhecidos.

Temos que nos admitir como uma eterna versão, que é dada pelas interações que tivemos até aqui e pelo que conseguimos pensar e sentir sobre elas.

Somos uma versão de um problema em aberto que nunca irá se fechar.

E para promovermos a inteligência coletiva aberta – o diálogo honesto em sala de aula, pela rede, nas organizações é preciso ter essa postura do estamos. E nunca do somos.

Sem ela, levamos algo fechado, que existe, que alguém detém e que outro tem que se render a este para ser aquilo também.

Nossa percepção sobre nós e sobre a realidade é algo fora das interações.

Porém, se há um problema em aberto cada interação nos leva à cada vez mais fundo nessa procura, nesse caminho.

O que muda completamente a postura de quem dialoga!

Quem acredita na realidade fechada tende a se fechar para a interação e o novo e vice-versa.

Por fim, que o post está longo, podemos dizer que o que nos identifica como pessoas é aquilo que já conseguimos perceber e as problematizações novas que as interações nos trazem.

Ou seja, quanto mais dialogamos mais conhecemos a realidade e nós mesmos, justamente o contrário de quem vem com um sistema fechado.

Para a visão do sistema fechado, o diálogo atrapalha, pois bagunça o que já está arrumado, evitando-se, assim, o diálogo honesto, sob o risco de quem tem essa percepção de mundo se perder na conversa, pois ele tem uma realidade e um ser a defender em todas as interações.

Essa percepção (e postura) diante da realidade e de nós mesmos é peça-chave para podermos interagir sem medo e aprender com cada encontro, algo fundamental em um mundo claramente mutante e mais veloz, como o vemos agora.

Esta é a questão de fundo que impede a civilização 1.0 de avançar para a nova.

É uma mudança de como vemos a realidade e a nós mesmos.

Uma passagem para uma física quântica, que cada objeto muda quando é observado ou entra em contato com o outro.

Só podemos conhecer interagindo e não nos fechando, como no passado, no qual o conhecimento era escondido na gaveta!

Um agente de mudanças é um ser que deve procurar essa reflexão, se não será um ser contraditório.

Precisa estar aberto, assim para se repensar assim como a realidade que ele não conhece, mas vai, através da interação, problematizando cada vez mais.

Assim, a visão que temos de nós mesmos e da realidade definem nossa postura e nossa capacidade de viver em um mundo mais colaborativo.

Essa reflexão é fundamental, a base, para podermos criar espaços de diálogos honestos, facilitando as interações.

E é um salto para quem quer ser um agente de mudanças nesse mundo complexo e aberto.

É isso.

Fui até aqui.

Que dizes?

 

 

 

6 Responses to “Somos ou estamos?”

  1. Hiran Pinel disse:

    Parabéns pelo belo texto e prenhe de teorias… adoro… att

  2. […] O texto da semana passada me levou a um outro patamar para compreender as macro-mudanças históricas que estamos passando com a chegada de um novo ambiente informacional, trazido pela rede digital (Internet). […]

  3. Nilton Jr. disse:

    Neste caso, vale repensarmos o velho paradigma… adotando então o “Estar ou não estar, eis a questão”.

    Abçs,
    Nilton Jr. (MBKM-RJ22)
    Obs.: Estava passando por crises de “abstinência neponiana”. risos…

  4. Carlos Nepomuceno disse:

    Nilton, valeu visita…

    Acho que a sociedade de maneira geral, toma todo dia a pílula azul de Matrix 😉

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