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O equilíbrio demorado tende a coisificar o mundo Nepôda safra 2011;

Acabo de ler atentamente o livro “O Remédio é a palavra” de Edemilson Antunes de Campos, baseado na sua tese de doutorado em que fez uma etnografia sobre o modelo terapêutico dos Alcoólicos Anônimos.

(O livro me leva a discutir e pensar em futuros posts que vão desde redes colaborativas presenciais  – para pensar na Internet, como já fizeram outros autores –  como também o processo de mudança, a partir da experiência dos grupos de mútuo-ajuda, sendo o AA mais conhecido.)

Vou começar a série de reflexões pós-livro com a questão da coisificação, como um passo importante para um processo de mudança das pessoas, em busca de uma saúde melhor e, diria, fundamental para essa nova sociedade que quer se basear na inovação.

O grande salto do tratamento do alcoolismo dado pelos alcoólatras foi a percepção de que beber de forma descontrolada e perder completamente o controle sobre a sua vida é uma doença.

Mais: uma doença crônica.

Tal fato partiu do estudo de médicos, que levou a repensar totalmente o tratamento da doença.

O AA é fruto de uma rede criada para resolver um problema de muita gente que não teria como ser feita de outra maneira, por uma questão de custo.

(O que demonstra a tese de que quando temos graves problemas a resolver e complexos, criamos formas novas, inovadoras e colaborativas – alguma semelhança com a Internet?)

E ainda com causas afetivas e genéticas com as quais o “doente do álcool” não consegue se controlar.

Não é uma questão de “força de vontade”, mas é preciso um tratamento bem direcionado para que ele passe a mudar a maneira que encara o problema e ter atitudes que o façam conseguir controlar a doença.

(O que abre uma discussão sobre a liberdade que temos sobre nossas doenças afetivas, fora a do álcool, como neuroses e todos os tipos, compulsões a várias coisas, inclusive à informação, bem comum, mas ainda pouco diagnosticada.)

Do ponto de vista filosófico, a questão abrange algumas questões humanas mais amplas , pois para conseguir controlar a doença o alcoólatra tem que trabalhar com a visão do “estar” e não do “sou”.

Ele não é um cachaceiro, mas está um cachaceiro e pode não estar mais, desde que consiga cumprir algumas ações, a partir de novas percepções, através de um tratamento grupal, gratuito por um grupo com suas regras de passos e tradições.

Ele tem que se afastar de pessoas, lugares e hábitos que o fazem querer beber e criar um novo ambiente mais saudável para que possa olhar a doença de fora e não como um labirinto, de dentro.

Uma sociedade, qualquer uma, é baseada em forças de interesse que se estabelecem nas estruturas de poder e tendem, para se preservar, a tentar aparentar aos seus cidadãos, que as coisas são assim.

Quanto mais paradas estiverem, melhor.

(O álcool, como outros produtos geradores de compulsão – incluindo futebol, novela, informação, nos levam a dependências, estimuladas pelo consumismo desenfreado e a dificuldade que temos em viver nossa vida. São estimuladas pela sociedade, pois há interesses e lucros envolvidos nos resultados.)

Quanto mais as pessoas tiverem a sensação de imobilidade e de não-mudança fortalece os lados conservadores.

O problema é que isso funciona se o tamanho da população permanece estável, mas quando muda, radicalmente, o modelo conservador tende e ruir, pois o modelo produtivo anterior torna-se obsoleto para atender à nova demanda.

Por isso, vem uma revolução da informação, seguida de mudanças radicais na sociedade, que precisa se repensar!

É preciso inovar e não mais conservar!

Assim, tudo tem que se estabelece na direção da coisificação e da amarração dos conceitos, das teorias, do senso comum e, por sua vez, das pessoas funciona bem na tentativa de se manter um equilíbrio em torno de um modelo conservador, porém, incompatível quando se quer inovar.

Não sou daqueles que atribuem essa coisificação ao capitalismo.

Coisificar é uma ferramenta de poder, de qualquer poder, vide o que as estruturas do comunismo de estado fizeram na URSS, China e Cuba.

Qualquer estrutura de poder tende a nos levar, através da burocratização, a esse lado de conservação que, por sua vez, nos leva a coisificação generalizada (vide Matrix).

A Internet vem possibilitar – através do descontrole informacional – esse papel de revisão geral de conceitos e da coisificação.

Quando um alcoólatra consegue ver dentro dele uma doença afetiva diferente dele mesmo, há uma separação entre o “estou” e “sou” que é o único elemento possível de mudança de uma pessoa, seja ela dependente do álcool ou não.

Só mudamos quando somos capazes de não nos coisificarmos em algo imutável e eterno. Quando vemos a vida em movimento.

Só podemos alterar qualquer conceito, teoria, pessoa quando não lhe atribuímos o dom da eternidade, pois assim, não a coisificando podemos colocá-la na história, no tempo e ter a capacidade de aprender a atuar dentro do processo.

Há em curso em toda civilização o início do questionamento do egoísmo como centro do sistema.

Não por quem está fora dele, mas por quem está na ponta dele, que precisa inovar de forma coletiva, o que esbarra justamente nesse modelo de cada um por si.

O novo capitalismo (2.0? Social? Colaborativo?) exige uma nova maneira de pensar o ser humano.

 

A experiência da rede dos anônimos nos dá a possibilidade, na prática, de compreender que quando saímos do nosso lado “coisificado” podemos vê-lo de fora e estabelecer com ele uma relação de conhecimento, relação e, portanto, de independência e de liberdade.

Não somos o que pensamos.

Não penso logo existo.

Penso logo estou preso nesse que pensa.

Para me libertar, tenho que vê-lo de fora, como uma placa-mãe programada para que eu tenha reações que não são necessariamente minhas!

No cerne das mudanças  da sociedade, através da revolução da informação em curso, essa experiência do AA é muito rica, pois nos leva a perceber que para inovar é preciso descoisificar e “desajetivar” as pessoas, os conceitos e as teorias e vê-las todas em movimento.

Passíveis de serem revistas, o que é característica de uma Revolução Informacional, que muda a base filosófica, como ocorreu na Idade Média, quando o ser humano incorporou um pouco de Deus e precisou gerar o renascimento para se repensar.

Cabe achar o melhor método, como faz o AA, baseado na palavra, na troca, na rede descentralizada.

Tudo completamente ligado ao conceito da Internet que veio depois, apenas sem tecnologia.

Assim, conseguimos separar aquilo que “estamos” e podemos ser daquilo que achávamos que “éramos” de forma permanente.

Que dizes?

(Volto ainda ao tema.)

PS – recomendo o livro para quem quer pensar em redes colaborativas e gestão de mudança, detalho mais as duas abordagens depois;

4 Responses to “A coisificação humana”

  1. Luiz Henrique disse:

    Para uma teoria social da epidemia que é a superesxposição a estímulos audiovisuais, há o livro muito bom, Sociedade Excitada: uma filosofia da sensação, do filósofo alemão Christoph Türcke.

  2. Adriana Melo disse:

    Oi Nepo, foi um prazer conhecê-lo hoje pessoalmente. Gostei muito do artigo acima, parabéns. Voltamos a nos falar. Abs.

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