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Tenho acompanhado com atenção a projeção meteórica que João Dória está tendo em São Paulo e já em todo o país, com forte chance de ser pressionado a sair candidato a presidente, com razoável chance de vitória.

Podemos dizer que o prefeito de São Paulo é a expressão do que temos de mais liberal em termos de administração municipal no país. Bato palma para ele, confesso minha empolgação e admiração, mas é preciso fazer alguns alertas, justamente agora quando a euforia começa a tomar conta.

Dória está tentando implantar em São Paulo melhoria na administração, através de saídas inovadoras, principalmente com parcerias estatal-privadas.

Dória, por exemplo, quer conceder todos os parques para a administração privada, através de relação ganha-ganha: você vende serviço lá dentro, mas cuida para que fique bem cuidado.

Ótimo!

Dória, a meu ver, é o mais liberal do que temos do PSDB, mas irá esbarrar em duas paredes instransponíveis do Liberalismo 2.0:

  • A mentalidade 2.0 de Estado;
  • A mentalidade 2.0 de Administração.

Vejamos.

A mentalidade 2.0 de Estado

O Estado provedor (saúde, educação, previdência, segurança, justiça) teve um grande inimigo nas últimas décadas: a Complexidade Demográfica Progressiva.

A cidade de São Paulo, por exemplo, tinha 240 mil habitantes, em 1900,  e passou a 11 milhões de habitantes, em 2010 – salto demográfico de 46 vezes em 100 anos!!!

A oferta de qualquer produto ou serviço na cidade ficou cada vez mais complexa, tanto na quantidade, quando na qualidade.

Uma organização, seja  privada ou estatal, que se proponha a centralizar tal oferta, esbarrará em cada vez mais problemas administrativos da demanda.

Some-se a isso, no caso da Prefeitura:

  • Falta de flexibilidade na administração de pessoas, o que inclui motivação e capacitação continuada;
  • Corporativismo;
  • Modificação de políticas estratégicas a cada quatro anos.

E teremos um beco sem saída.

Por mais que haja esforço, parceria, ajustes, há limite da capacidade de ofertas centralizadas em patamar de complexidade tão grande.

A conta não fecha.

A privatização dos serviços que hoje estão na mão do estado não é, assim, a meu ver questão de ideologia, mas administrativa.

O conceito de estado provedor de serviços tão complexos como educação e saúde com população de 11 milhões de habitantes se torna inviável.

Os problemas de fornecimento de uniforme, de material escolar, de remédios só podem ser feitos no modelo atual se houver progressivo processo de padronização, massificação e centralização.

Pode-se resolver hoje o que está em péssimo resultado, mas mais e mais teremos uma população mais exigente e uma inviabilidade de modelo funcionar.

Vai chegar um momento que os empresários (já não tão empolgados) vão dizer que não vai mais doar por falta de recursos e aí começamos a ter problemas a serem enfrentados do próprio modelo.

É preciso pulverizar as ofertas, através do empreendedorismo nestas duas áreas, reduzindo o pagamento indireto, via impostos, pelo pagamento direto, com possibilidade de vouchers para os mais necessitados.

A desestatização da saúde e educação é uma questão administrativa.

Toda a tentativa de superar tais demandas complexas e diversificadas com ofertas massificadas e centralizadas vão gerar crises de atendimento no médio e longo prazo.

Por melhor que sejam as intenções.

A mentalidade 2.0 de Administração

Obviamente, que além da pulverizar os serviços para empreendedores privados, muito sobrará para a prefeitura, principalmente na manutenção da cidade, realização de obras de infra-estrutura, proteção do cidadão e patrimônio.

Aí temos o problema da Gestão.

Hoje, se aponta para projetos com o do Colab (plataforma para receber pedidos pelo cidadão), em que o cidadão, via digital, mais e mais envia demandas e sugestões para o administrador.

Porém, há um limite da Gestão (como demonstrei aqui) em processar e atender sugestões participativas.

Não basta colocar aplicativos e coletar sugestões, se o Modelo de Administração continua baseado em um Gestor, que têm que decidir. E não num Curador que gerencia plataformas, como é o caso do Uber.

Se esbarrará em limites entre receber sugestões, processar e mudar. Vejamos primeiro como é um modelo administrativo, digamos, mais equilibrado entre sugestões e mudanças.

E o que começamos a ter depois do Digital:

Aumentamos a demanda por participação, mas o processamento para receber sugestões e entregar mudanças permanece o mesmo.

Isso gera crise no longo prazo da própria Gestão, que tem cedido lugar à Curadoria, os Ubers, que conseguem descentralizar as decisões via Reputação Digital e Inteligência Artificial, transformando sugestão em decisão, sem passar por Gestor.

Haverá mais e mais incompatibilidade entre o cidadão mais participativo e o Gestar incapaz de atender suas expectativas.

Como mudar?

Obviamente, que as duas mudanças promovem profundos choques culturais e esbarram em fortes interesses corporativos, tanto de empreendedores tradicionais quanto de colaboradores internos das Organizações 2.0.

Assim, é preciso criar Ilhas de Inovação para que as novas mentalidades sejam experimentadas e aculturadas.

Regiões devem ser escolhidas para testar a mudança no modelo de Estado e Administrativo, trabalhando com duas frentes:

  • A atual –  com  consciência de seus limites;
  • A nova – com  consciência das resistências.

Conclusão

Por mais boa vontade que tenha Dória de mudar e de acertar, os limites tanto da Mentalidade  de Estado e de Administração 2.0 vão esbarrar na realidade da oferta possível com a demanda desejada, cada vez mais exigente.

Pode não ocorrer agora tais problemas, mas é  preocupação para quem tem projeto de médio e longo prazo. É preciso, dese já, afirmar que há limites do que está se propondo.

Que é uma etapa do processo e não o fim do mesmo.

É preciso ter clareza que Dória é a ponta do Liberalismo 2.0 no Brasil de hoje, mas absolutamente não é o supra sumo da concepção de até aonde podemos ir.

É preciso defender os conceitos do Liberalismo 3.0, que, antes de tudo, sugere rever mentalidades para superar algumas barreiras, tanto do conceito de Estado quanto de Administração.

Se isso não for feito, as crises que virão no médio prazo darão a falsa impressão que o liberalismo fracassou.

Quando, na verdade, é o Liberalismo 2.0 que estará batendo nas paredes das contradições históricas.

É preciso, desde já defender o novo ciclo Liberal 3.0, que está ainda engatinhando, mas promete saídas mais permanentes.

PS- Dória tem que evitar o paradoxo Macri na Argentina, que se contrapôs ao governo bolivariano, mas não conseguiu dar respostas mais consistentes para as crises que temos.

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