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 A sociedade do conhecimento é um conceito, que parte de uma teoria, fortemente baseada na economia. É uma teoria indutiva, pouco aprofundada, com várias inconsistências e com danos relevantes para as organizações que estão se preparando há anos, sem sucesso, para entrar na idílica sociedade do conhecimento (que não existe) e não para a sociedade digital colaborativa, que tem feito – esta sim – relevantes mudanças no cenário!

Versão 1.1 – 11 de junho de 2012
Rascunho
 – colabore na revisão.
Replicar: pode distribuir, basta apenas citar o autor, colocar um link para o blog e avisar que novas versões podem ser vistas no atual link.

Vamos a um sucinto histórico da teoria da sociedade do conhecimento.

(Desculpem a simplificação, mas podemos ir aprofundando, conforme demanda.)

Vivíamos a década industrial (fábricas de tijolo, linha de montagem, bens tangíveis) e foi se observando uma mudança na geração de valor das empresas, com mais gente se dedicando a atividades não braçais e muito mais intelectuais, agregando no produto mais e mais “conhecimento”.

Pensaram, a partir dessas observações:

“Hum, estão usando mais o cérebro, então estamos em outro mundo, em outra sociedade, uma sociedade em que usamos mais o conhecimento do que no passado”.

Bingo!

Estamos entrando na Sociedade do Conhecimento!

(Teorias, apesar da maioria considerar que são desperdícios de tempo e esforços, formam as bases para as metodologias e para cenários estratégicos, dos quais as organizações projetam seu futuro e decidem investir tempo e dinheiro.)

Pode-se, então, deduzir, pela sequência:

Se estamos, então, na sociedade do conhecimento, precisamos nos dedicar mais a fazer a “gestão desse conhecimento”, portanto, vamos criar uma metodologia: gestão do conhecimento, que acaba criando departamentos, grupos de profissionais, congressos.

Assim, parte-se do princípio que empresas gerenciando melhor o conhecimento, vão gerar mais valor para elas e para a sociedade.

Uma teoria é a que constrói o cenário/estratégico e a gestão/metodologia é como se faz para se chegar no cenário previsto. Se a teoria está com problemas, todo o resto, inclusive o dinheiro que vai se gastar, vai junto pelo mesmo falso ralo.

A sociedade do conhecimento (teoria) e a gestão do conhecimento (metodologia) partem, assim, de uma visão filosófica do mundo de que o ser humano em alguns momentos da nossa história precisa (ou usa) mais do conhecimento do que em outros.

(Anota: a filosofia é o ambiente de discussão que tenta problematizar os reais limites humanos.)

Seríamos, nós os escolhidos para viver nessa época dourada do conhecimento, e não na renascença, no iluminismo, na criação de toda a base ocidental que foram os Gregos ou aqueles que nos levaram a democracia ou ao capitalismo.

Todo o passado do uso do conhecimento para conquistas humanas deve ser ignorado, pois teorias não precisam recorrer a história e mostrar similaridades. Elas se disseminam cada vez mais, infelizmente, pelo marketing e não pelas suas bases científicas.

Podemos dizer que a teoria da sociedade do conhecimento – que leva muita gente da academia de roldão – é uma teoria marqueteira, muito mais um modismo do que algo que veio para ficar.

Tal visão, a meu ver equivocada, nos tira da ordem natural das coisas, conforme a histórias nos ensina, pois nos coloca em um “momento especial” da história um super-homem e uma super-mulher do conhecimento, que surgem no planeta por algum motivo inexplicável.

Nessa linha, por lógica:

  • Somos agora a super sociedade do conhecimento.
  • A próxima será a hiper sociedade do conhecimento.
  • E a que virá depois será a sociedade do conhecimento turbo, platinum, gold, diamond??? 😉

O conhecimento, assim, deixaria de ser o que sempre foi vital para a humanidade e gerenciado pelas tecnologias cognitivas de plantão.

E deixa ainda de ser relacional, conforme o estágio de desenvolvimento produtivo, social, político, principalmente influenciado por fatores demográficos.

Antes, por esse conceito, vivíamos a sociedade de um pré-conhecimento, apesar de todos os avanços que tivemos, para agora sim, (não deixando de registrar uma certa arrogância), aceitarmos que chegamos à tal sociedade do conhecimento.

São dois modismos, que estão passando e vão passar: a sociedade do conhecimento (mãe) e a gestão do conhecimento (filha).

Na qual, a meu ver, as pessoas têm cada vez menos tempo para pensar. 🙂

Há, de fato, inegavelmente, uma variação na forma de usar o conhecimento.

Como e por quê não é algo que se aprofundou e por isso estamos derrapando na curva.

Quanto mais a rede digital for entrando pelos poros da sociedade, mais a ideia de sociedade de conhecimento e gestão de conhecimento vai ficando obsoletas, pois tem um erro grosseiro na fórmula dessa teoria e dessa metodologia.

Ambos, fruto de um mundo baseado fortemente na maneira americana de pensar problemas de maneira geral e fazer negócios: vamos sentindo e criando teorias provisórias, de forma indutiva, até que tenhamos uma melhor.

Pouco importa o custo que isso possa ter e as sinucas de bico que isso cria, ainda mais agora em momentos de ruptura!

Uma forte rede de consultores, editores, livros, palestrantes, tecnologias, metodologias, cursos são muito bem empacotadas e investem na teoria e na metodologia da vez.

O problema que cabe perguntar é: estão agregando valor e estão deixando as empresas mais alinhadas com o futuro?

Acredito que não!

(Esperta é a empresa que conseguir olhar mais do alto da montanha, o que reforça o papel dos estrategistas teóricos.)

O modelo indutivo americano está em crise, pois vários pensadores – fora dos EUA – estão apontando coisas tal como Castells (espanhol), Levy (tunisiano) ou mesmo McLuhan (canadense, que já morreu e não está influenciando como deveria), mas são muito teóricos para uma maneira metodológica de curto prazo de ver o mundo!

É o que Schumpeter (austríaco) chamou de teorias baseadas em slogans, em conceitos pré-científicos, pois não são aprofundadas.

(Recomendo a biografia dele e o capítulo que trata de ciência e ideologia e o esforço de embasar tudo que fez na história)

Uma teoria consistente, que resultaria em uma metodologia no mesmo nível, precisa de algumas premissas básicas:

  • a) apresentar uma hipótese de uma dada mudança na sociedade;
  • b) apontar algumas causas e consequências, que a história comprova serem coerentes, com uma capacidade e necessidade humana;
  • c) manter uma coerência entre dada filosofia, teoria e metodologia;
  • d) ser capaz de apresentar tais fatores como possíveis normas e leis que se adequam agora, antes e depois.

Uma boa teoria é aquela que dura mais, apenas isso.

Repito: a teoria da sociedade do conhecimento é indutiva, parte dos fatos para as versões. De alguns fatores – reais e pertinentes – porém não embasados na história. É quase um castelo de cartas, sustentado muito mais pelo marketing do que pela razão e pelos fatos!

Como muita gente precisa se agarrar em algo diante das grandes mudanças e esse algo é um modelo americano indutivo de ver o mundo, esse tipo de meia-verdade, se espalha como fogo no mato, porém não gera valor, apenas cinzas.

(A Web 2.0 é algo similar.)

O problema dessas teorias indutivas improvisadas é que não duram muito tempo, mas fazem estragos danado, pois se gasta muito dinheiro sem os resultados esperados.

A Internet, por exemplo, não se encaixa no modelo da sociedade do conhecimento.

E nos leva a rever as causas que provocaram a tal “intangibilização da sociedade”, o aumento do trabalho intelectual versus o braçal e o aumento cada vez maior de horas de trabalho intelectual nos produtos.

Assim, não podemos nos chamar de sociedade do conhecimento, mas de sociedade que baseava a circulação de ideias no papel impresso e nos meios eletrônicos de circulação de ideias e que está passando agora para o meio digital, primeiro sem rede e depois em rede.

Todas as consequências desse fato batem com os sintomas percebidos pelos teóricos da sociedade do conhecimento, mas não se consegue ali perceber o outro DNA mais próximo da realidade.

O DNA das mudanças das tecnologias cognitivas muito mais útil agora para lidar com as redes sociais.

Ou seja, nosso erro não foi o de perceber os sintomas (que são reais), mas erramos nas suas causas!

A Internet tem comprovado que mudanças nas tecnologias cognitivas têm esse efeito devastador no modus operandi, assim como teve a fala, o papel, o computador – o que nos mostra algo mais consistente historicamente.

Não estamos assim entrando na sociedade do conhecimento, mas na sociedade em rede digital, que causa essa mudança na forma de lidar com o conhecimento – que sempre foi vital.

Desse ponto de vista, o alinhamento que temos que fazer é outro: nos alinharmos à sociedade colaborativa em rede, que nos leva para uma meotodologia completamente distinta da atual baseada na gestão de conhecimento.

Pior: a gestão de conhecimento, por ser algo artificial, não consegue conversar com a gestão da inovação, da comunicação, da informação, da educação, etc.

A gestão das redes sociais digitais já tem essa abertura maior, pois está mais próxima de uma teoria mais coerente.

Assim, nós não temos MAIS conhecimento, porém estávamos lidando de forma nova com o conhecimento, através da chegada dos computadores e depois agora com eles em rede.

 Somos sim a sociedade digital em rede, tendo como causa principal de sua chegada o aumento radical da população que nos leva a ter um ambiente de circulação de ideias mais sofisticado do que o anterior.

Podemos dizer que muito mais do que “o uso do conhecimento”, percebido na última metade do século passado, o que vivemos intensamente foi a chegada do computador primeiro de grande porte (a partir de 1940) e depois do micro (1980),.

O computador nos permitiu lidar de forma diferente com a informação e com o conhecimento, conseguindo “intangilbilizar” e criar um novo ambiente em que a migração para o digital nos foi permitindo fazer mais com menos, criando um novo perfil de profissional, mais longe do chão da fábrica, mas não profissional do conhecimento, mas aquele que trabalha diante de um computador – diante de uma tela.

Gerenciar esse novo profissional e os arquivos que ele produz é algo fundamental, mas não o conhecimento!!!!

Assim, podemos dizer que a passagem não foi, como a visão economista (centralizada e fechada nela mesmo) previu – do braçal para o intelectual, porém de um mundo em que se circulava e gerenciava ideias no papel para o computador e agora do computador sem rede para o em rede.

Acima da força econômica, como apontou McLuhan, existe o poder do meio de transmissão de ideias: o meio é a mensagem, a modelagem e a mudança de paradigmas social, político e econômico.

Ou aceitamos, debatemos, discutimos a influência das tecnologias cognitivas na história, ou vamos ficar patinando até que os fatos da vida nos leve até ela (como o que tem ocorrido a nossa volta e estamos cegos para ver)!

A teoria pouco consistente sociedade do conhecimento (mais ainda muito badalada), na verdade, era a sombra da sociedade digital nascente, que começou a apontar seus primeiros passos, que agora se tornou muito mais evidente.

  • Confundiram corpo e sombra.
  • E estamos vivendo de uma sombra sem corpo!
  • Sai desse corpo que não te pertence, sombra!

Vivemos a sociedade em rede digital, baseada no ambiente cognitivo que a Internet nos trouxe, potencializando o computador.

E é para esse novo mundo que estamos indo e precisamos URGENTEMENTE assumir, e criar formas de gerenciá-lo, revendo filosofias, teorias e metodologias, de formas mais científicas e menos mercadológicas.

Precisamos de uma metodologia consistente para fazer alinhamento ao mundo digital em rede – e essa não está aí sendo oferecida AINDA!

Pois, em última instância, uma teoria capenga gera falta de valor para todos!

Por mais que muitos ingenuamente acreditem que uma boa teoria não dá dinheiro!

É isso,

Que dizes?

PS – Manuel Castells questiona nessa direção, um aspecto deste texto, que o conhecimento sempre foi relevante, mas fala de rede e de algo chamado “informacionalismo”, que ainda é uma visão econômica, não defende, como McLuhan e Castells, o poder das teorias cognitivas alterar a sociedade,  veja mais aqui.

14 Responses to “A sociedade do conhecimento não existe!”

  1. Bruno disse:

    A sociedade do conhecimento nunca existiu, essa teoria indutiva, sem fundamentos históricos e científicos, nos levou a muito equívocos de gestão!

    É uma pena ver esforços nesse sentido, e o que é pior, ver pessoas lutando cegamente por essa causa, como se fosse a única verdade que nos cerca!

  2. Igor disse:

    Onde há ação, há conhecimento (ainda que tácito). Toda sociedade é conhecimento. Realmente pode parecer estranho qualificar “sociedade de conhecimento”.

    Considerando o propósito social como principal qualificador, e o ritmo das intervenções atuais da sociedade no ambiente, ação não poderia ser considerada qualificador (propósito) e por consequência conhecimento?

    Acredita que conexão (troca) global já tem mais peso que ação?

    Muito obrigado pelo texto.

    • Carlos Nepomuceno disse:

      Igor,

      qualificar é teorizar.

      Teorizar é propor um cenário para o qual devemos ir.

      Propor um cenário significa criar uma metodologia.

      E, por sua fez, exige tempo, esforço e dinheiro.

      Será que a teoria está precisa e todo o resto?

      O que aponto é que estamos agindo agora em uma rede digital e isso faz toda a diferença.

      O que varia não é a quantidade do conhecimento, mas o modelo da rede de conhecimento sob a qual agimos.

      Por aí, abraços,

      Nepô.

  3. ALDA CLAUDIA SILVA MORAIS disse:

    Em nossa história, no contexto geral esta ligado diretamente a um passado, uma era… quando se parte de algo sem passado, “sem futuro” só presente; não tem valor real passa a não existir, é ilusório.Precisamos ser cônscio de todo que nos rodeia pra não perdemos tempo…

  4. Carlos Nepomuceno disse:

    Alda, justamente, amanhã vou postar sobre o vírus da metodologia….que precisa criar algo artificial e, para isso, ser a-histórico…veremos o que achas, valeu visita e comentário, Nepô.

  5. Carlos Nepomuceno disse:

    Igor, justamente, viram os efeitos, mas não as causas e a metodologia está tentando dar novalgina para uma “doença” muito mais mutante do que uma simples dor de cabeça….

    valeu!

  6. Haralan disse:

    Oi Carlos,

    Ótimo texto. Me fez pensar…e questionar:

    O aporte oriental da Gestão do Conhecimento é muito mais sólido teoricamente. Mas por que sua crítica, neste texto, considera apenas a visão ocidental americanizada do assunto?

    Não seria tecer uma crítica desconsiderando fatores válidos daquela teoria?

    Abraço!

  7. Carlos Nepomuceno disse:

    Haralan, não conheço a versão oriental, poderia desenvolver mais?

    grato,

    abraços,
    Nepô.

    • Haralan disse:

      Eu não chamaria de “versão” oriental. Porque não é a mesma coisa, com uma embalagem diferente. É uma essência diferente, com embalagem parecida.

      Entendo que o conceito de ba, originado na filosofia de Kitaro Nishida e desenvolvido posteriormente por Nonaka, fornece um suporte teórico um tanto quanto mais profundo à Gestão do Conhecimento do que a “visão americanizada” que o sr. citou.

      Se olharmos a Gestão do Conhecimento pela perspectiva do “ba” ela não é tão enlatada e nem meramente economicista.

      Essa conversa está ótima!

      Abraço!

  8. Carlos Nepomuceno disse:

    Bom, que precisamos fazer a gestão do conhecimento, da informação e da comunicação não se nega. O que questionei basicamente aqui é a ideia da “sociedade do conhecimento”, que é algo artificial.

    Fiquei curioso pelas ideias do Kitaro Nishida, vou me aprofundar mais sobre isso, grato pela dica.

    abraços,
    Nepô.

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