Nenhum fenômeno histórico é igual a outro: paralelos servem, entretanto, para iluminar diferenças – Demétrio Magnoli - da coleção;

Bom, tenho trabalhado aqui neste blog com o conceito da revolução da informação, veja o último post aqui.

A Internet traz ao mundo uma nova forma de interagir com a informação, que nos leva à momento similar da história humana da chegada da fala e da escrita (ver mais em Lévy, Cibercultura).

É algo de uma dimensão tamanha que será um ponto de partida para todo o próximo século (e os demais) que serão definidos como pré e pós-Internet.

Não temos teorias sobre isso, pois não precisávamos.

Não é todo dia que chega algo desse tamanho na sociedade.

Uma revolução do mesmo tamanho ocorreu há 550 anos atrás, quando o papel impresso potencializou o poder da escrita na sociedade, inaugurando, o que vou chamar de Escrita 3.0.

Vivemos, entretanto, influenciado pelo modo de pensar americano, sob a cultura do imediatismo, pragmatismo e da a-história, visões filosóficas que nos dificultam perceber melhor esse fenômeno global, cíclico, radical e histórico que é a chegada da Internet.

Agora chegou e inês 1.0 é morta no túmulo 2.0.

Há que se entender, pois perder o bonde da história, jamais!

Bom, esse blog está repleto de reflexões sobre isso, mas vamos aprofundar mais um pouco, pois conhecer é uma ignorância cada vez mais trabalhada.

A escrita data de 50.000 a.C.

Reconheço até aqui teve três fases (pode ter tido mais), até agora balizadas, a partir da introdução de evoluções, novas tecnologias que reduziram seu custo para difundir ideias para a sociedade:

  • A escrita 1.0 que vai de 50.000 a.C a 2.000 AC DC, até o surgimento do alfabeto, na fase do papiro e do livro manuscrito pelos símbolos;
  • A escrita 2.0, que vai de  2000 AC a 1450, do alfabeto nos livros manuscritos até o surgimento do papel impresso;
  • E a escrita 3.0 que vai de 1450 até os 1990, quando chega a Web. Há nessa fase, além do papel impresso, o surgimento evolutivo tanto do rádio e da televisão, que são evoluções importantes, mas mantém o mesmo modelo vertical da distribuição de ideias do papel impresso, não podendo ser consideradas Revoluções Informacionais, apenas evoluções.

O alfabeto, como o livro impresso e a Internet têm em comum: redução de custo de ideias em um dado suporte.

Podia-se, com eles, transmitir mais, com novas possibilidades interativas, com menor custo. O papel impresso, como o rádio e a tevê expandem a capacidade de um enviar mensagens para muitos. E a Internet, além de outras coisas, de permitir a troca coletiva em rede a distância.

Com eles, mais ideias puderam circular, de forma mais barata, o que caracteriza um dos aspectos básicos das revoluções da informação.

Uma revolução desse tipo traz a oxigenação de ideias em dada sociedade, a partir da massificação de determinado meio.

Tal fato gera uma onda de questionamentos de problemas antes não percebidos ou sem espaço para a troca de ideias e discussão no modelo informacional anterior.

Alargam-se as mentes, o que abre espaço para mudanças radiciais mais adiante.

Pois bem, depois da chegada do alfabeto, temos a explosão do mundo grego, a chegada de pensadores como Sócrates e Platão, sendo que o primeiro nunca escreveu nada e o segundo, já adotou a nova mídia, da escrita com alfabeto.

Note, entretanto, que demoramos 48 mil anos para chegarmos dos sinais gráficos da escrita ao alfabeto e mais 3.500 anos para que houvesse uma tecnologia (papel impresso) que barateasse o preço da difusão de ideias pelo papel manuscrito e permitisse a sua massificação, mudando radicalmente a civilização, a partir dos novos canais.

A mídia era restrita como elemento de dominação cognitiva por quem detinha o poder.

E as ideias no papel impresso inundaram o mundo com novas ideias!

Estas revoluções da informação (como a que vivemos agora), que começam com uma nova tecnologia cognitiva, têm em comum:

1- estagnação – um ambiente estagnado de ideias em função de mídias controladas pelo poder vigente, que impede a inovação e, por sua, vez o desenvolvimento, criando crises sociais, pois a população cresce e começa a ter problemas sérios de demanda não resolvidos, quer-se liberdade para criar, por isso precisa-se de novos canais para troca de ideias;

2- uma nova mídia – vinda de fora da estrutura de poder – amplia a possibilidade da troca de ideias, que surge sem essa intenção, mas se presta muito bem a esse papel, sendo adotada por visionários tecnológicos, filósofos, revolucionários e, por fim, por uma nova classe social que assume o novo ambiente de poder, estabelecendo novas regras mais ajustadas ao tamanho da população;

3- renascimento –  há, após a revolução tecnológica, um renascimento de ideias, um surto filosófico, logo após a sua massificação para se questionar o modo que se pensava antes, uma necessidade humana de reciclar civilizações, em função do aumento da população, iniciando uma revisão radical dos sensos comuns na sociedade;

4- revoluções sociais – na sequência do surto filosófico, iniciam-se revoluções sociais para ajustar novas ideias ao conjunto de normas e regras da sociedade, emergindo uma nova classe social, mais antenada com as ideias filosóficas novas, que questionam completamente o modus operandi anterior e ajustam à sociedade a uma ambiente inovador, compatível com o tamanho da população. Ganha-se em liberdade informacional, pois sem ela, o sistema produtivo não consegue inovar e dar conta das demandas.

Uma revolução informacional, assim, vem rever uma civilização parada e numa crise latente, marcada por um ambiente informacional dominado por uma determinada classe social conservadora que resiste às mudanças exigidas pelo novo tamanho e diversidade da população.

Se quisermos mirar o futuro é preciso olhar para o retrovisor, de quando em quando, para comparar estágios.

Hoje, em 2010,  podemos nos situar na fase 1, da revolução, massificação tecnológica, expansão, caminhando para a fase 2, que é o início do surto filosófico, com visionários projetando o futuro: capitalismo 2.0, empresas 2.0, cidades 2.0, escolas 2.0, etc….

Iremos precisar dos pensadores – principalmente filósofos –  para começar a rever nossos conceitos e sensos comuns.

É a nossa fase atual, que significa os espaços que estão se abrindo – inclusive na mídia tradicional – para esses filósofos.

Depois disso,  provavelmente estas ideias vão se consolidar e teremos o espaço, se a história tiver a mesma lógica, para as revoluções (ou evoluções) sociais, nas quais novas leis e regras serão implantadas, fruto desse surto filosófico.

Não vamos copiar um mundo, precisamos inventar outro!

Como afirma Demétrio Magnoli que paralelos históricos, não só servem para iluminar diferenças, mas facilitar encontrar as perguntas certas, tais como:

Tais mudanças serão tão violentas como no passado? Serão revolução ou evolução? Serão incorporadas ao capitalismo ou surgirá um outro regime, não mais baseado no capital e lucro? Em quanto tempo? Com que bandeiras? Será assim tão demarcado? Ou tudo misturado ao mesmo tempo? Como é tudo isso em um planeta completamente interdependente? E já com uma certa democracia consolidada?

(Note que o conceito de democracia hoje aceita que bilhões vivam na miséria, pois está baseada na democracia local e não global.)

Isso não dá para prever apenas especular, mas questões tais como: Ecologia, lucro, capitalismo, exclusão social, novos conceitos de espiritualidade, novas instituições, tais como – escola, parlamento, organizações, governos, países, governo mundial, etc, estarão fazendo, muito provavelmente, parte desse balaio 2.0.

Nessa escalada, podemos dizer que temos e teremos os seguintes perfis de atores bem demarcados:

  • Os revolucionários da tecnologia - inventores do alfabeto, Gutenberg e a indústria de impressores que o seguiu, inventores do computador, Bill Gates, Steve Jobs, Linus Torvald, o cara do Twitter o outro do Facebook, etc, que aperfeiçoam as plataformas, reduzindo custo, facilitando o uso e construindo uma nova indústria cogntiva, com novos patamares;
  • Os filósofos – Sócrates, Platão, Rousseau, Thomas Paine, Marx, Freud, Pierre Lévy, Castells, Wolton, Baumann, todos os que projetam e projetaram a sociedade futura, são geralmente pouco ouvidos e até desacreditados na sua época, mas  introduzem questionamentos no senso comum civilizacional, que dão bases para as revoluções (ou evoluções sociais) que se seguem,  já usando as novas mídias como ferramentas de mobilização, como os panfletos na pós-Idade Média, como hoje blogs, redes sociais, e mesmo revistas, jornais, etc…
  • Os revolucionários/evolucionários – na grécia me faltam exemplos (estou estudando), Robespierre, Jefferson, Lenin, Trotsky e os que virão para transformar o que são hoje intuições 2.0 em uma nova sociedade. (Um palpite: virão do terceiro mundo e usarão (ou inventarão)  novas mídias digitais para mobilizar como ninguém ainda previu!), algo como se viu timidamente no Irã e na eleição de Obama, isso é a pontinha, da pontinha, do iceberg;
  • A nova classe social, que se beneficiará das novas leis pós-revolução, que vão refrear os ânimos, devem dar um chega para lá nos filósofos e estabelecendo um controle sobre o novo ambiente e consolidando essa nova civilização em novas bases, restabelecendo novos patamares de poder, mais ajustados ao número de habitantes, com uma mídia mais adequada para o ritmo da inovação da vez, com um patamar de respeito humano e democracia mais ajustado a essa necessidade.

Há vários fatores que nos apontam nessa direção hoje em dia.

Uma revolução informacional é, assim, tão poderosa como uma bomba H, diante de um estalinho de uma revolução social, que apenas consolida leis, que já estavam prenhes pelos filósofos, que só conseguiram pensar o que pensaram em função da mudança de mídia.

(Vide o fim da monarquia, pré-Revolução Francesa com a defesa dos pensadores pelo direito de escolher governantes, fora dos desígnios de Deus.)

É uma incubradora de revoluções sociais, depois de um surto filosófico, que vem estabelecer nova civilização mais ajustada ao tamanho da população.

Pode não ser assim?

Pode.

Podemos viver outra complexidade diferente do que foi a Idade Média ou a Grécia?

Sim, podemos, com certeza.

Mas se temos que nos agarrar a algo hoje de forma mais consistente, com tantas mudanças que se repetem ciclicamente é olhar com carinho para trás e estudar, estudar, estudar, comparar, comparar, comparar, dialogar, dialogar, dialogar, rever, rever, rever.

(É fato: nada socialmente falando pode ser novo para o humano, pois não mudamos nossa essência, apenas como a desenvolvemos históricamente.)

Esse mergulho na história é chave para projetar estratégias para o futuro.

Se o impacto será menor, pode ser, mas deve seguir, muito provavelmente, a mesma  trilha, com fases entrelaçadas, ou bem demarcadas e atores bem visíveis.

A ver e acompanhar, até onde estivermos vivos.

Que dizes?

Complemento o post com duas frases do Demétrio Magnoli: