Estamos em uma evolução, ainda nos primeiros degraus (…) para deixarmos de ser um jornal e virarmos uma grande rede social de notícias - Paulo Musoi;

mussoi

Meus comentários em vermelho.

Conversei com o Editor de Interatividade, Paulo Musoi, que é responsável para que esta interação ocorra de uma forma harmônica.

Ele conta com uma equipe de cinco pessoas, aparentemente incompatível, com o volume de 150 mil comentários recebidos pelo Globo em março de 2010, dentro de um universo de 3 milhões de usuários cadastrados, que mantém  700 mil contas ativas (considera ativos usuários que estão frequentemente visitando o site).

(Ele comenta que é uma parcela ínfima que participa, fiquei de aprofundar mais esta questão. Esta entrevista, só para você saber, faz parte do trabalho da minha tese.)

Lembra, entretanto, que não tem ainda dados mais consistentes do perfil dos usuários que colaboram.

(Aliás, esta é uma máxima no mundo 2.0, coletamos muito e ainda não temos tempo, ferramentas, cultura e metodologia para sabermos mais. Já vi isso sendo dito por outras grandes empresas, inclusive na área de varejo de massa.)

Acredita, no olho,  o leitor do Globo tem um perfil mais conservador.

Lembra que o processo de interação no Globo veio em função da percepção evidente de um desejo do leitor em participar (que chamo de latência, que abordo no modelo desenvolvido no grupo de estudos) e a nossa incapacidade (de todos os agentes de mudança)  de responder a estas com  com um serviço compatível.

E, paralelamente, viram no processo de desenvolvimento, a movimentação da concorrência, de outros sites que trabalham com notícias, organizando muito bem esse tipo de conteúdo (principalmente no exterior). E começaram a ver que estavam ficando para trás.

(É interessante observar que o que move uma empresa, tanto pode ser seu lado visionário – mais raro; ou os concorrentes – mais comum, o que reforça a frase:
 

Uma empresa até pode ignorar esse fato e não investir em blogs, wikis ou redes sociais,  mas, nesse caso, é bom desejar que os concorrentes tomem a mesma decisão e não façam investimentos nesta área – Andrew McFee, da minha coleção.)

Considera que é inerente ao mundo digital, a capacidade dos usuários de não serem passivos em relação à informação com a qual você está lidando.

Não só respondendo a essa informação, como também, ser um gerador dessa informação, retrabalhá-la, compartilhá-la de todas as formas.

(A ideia do co-criador, prosumidor…)

Ele considera que a interação e o desejo de participar, a parcela que o faz, manda o conteúdo, é um reflexo desta característica inerente ao mundo digital. Quem uso o mundo digital tem isso muito vivo no seu comportamento.

Diz Musoi:

“A latência da participação já existia e a Internet deu ao leitor ferramentas fabulosas, poderosíssimas para ele fazer aquilo que ele talvez sempre quis fazer, mas não era capaz de fazer, ou era difícil. Só uma parcela das pessoas se interessava por isso e agora tem cada vez mais gente. E a coisa ganhou uma dimensão exponencial”.

(Gostei bastante desta frase, pois resume bem o que é o mundo 2.0. Substitua isso aí em cima pelo livro impresso, depois do feudalismo e veja se não temos uma similaridade enorme.)

Em termos de benefícios para o jornal, lembra que o Globo ganhou um “exército” de repórteres, que estão e estarão em locais que o jornal jamais estará, principalmente ao se analisar o Eu-Repórter.

(Sugiro sobre esse tema luz e sombra da informação: o texto deste blog, luz e sombra.)

Diz Musoi:

“Hoje se consegue ter um jornalismo hiper-local, algo que nunca se terá, mesmo que se contrate 1.500 repórteres para estar em todos os bairros da cidade. Nós nunca vamos conseguir chegar ali no problema mais localizado, desde o buraco da rua, da falta d´água”.

Problemas que são importantes para os leitores, que eles jamais poderíam repercutir. E que teriam muito mais dificuldade de serem corrigidos.

Ele considera, apesar de ainda estarem nos primeiros passos, no sistema de interatividade, se comparado com o que já existe no mercado, com as práticas que observa que já vêm sendo feitas.

Ou seja, numa estrada que está apenas começando.

Mesmo assim considera que consegue um volume imenso de participação, efetividade, uma repercussão no material que se publica, fazer um determinado tipo de jornalismo, que não seria possível, se não fosse essa ferramenta com a ajuda dos leitores.

Diz Musoi:

“Isso já é um grande ganho, que pode ser aumentado exponencialmente, se conseguirmos fazer uma ferramenta mais integrada ao dia-a-dia do leitor, mais integrada ao sistema de publicação, já que temos hoje um grande “Frankenstein” tecnológico”.

Já, do ponto de vista dos comentários, considera que ajudam muito a fidelizar e aumentar a audiência, o que considera positivo, pois tem um índice muito grande de comentaristas assíduos, que entram todo “santo dia” para falar e, principalmente, debater os assuntos escolhidos.

Há leitores com perfil bem definido para determinados assuntos e os comentários também dão qualidade às notícias, pois além da matéria, se tem a repercussão imediata da mesma, o que chama a atenção de outros leitores.

Há também o perfil do leitor que gosta de ler não a matéria, mas os comentários, pois já tem um conhecimento do assunto, mas quer saber o que os outros estão pensando.

Mas considera que o mais valioso algo que ainda não conseguiram, que é extrair deste debate todo e poder organizá-lo de uma melhor forma.

(O que seria a fase 2, a meu ver, disso tudo, começar a verdadeira missão de apicultor, saindo do conceito de ordenhador de vacas.)

E, a partir daquela Inteligência Coletiva que está sendo gerada, poder criar novos conteúdos e serviços, que é o caminho que aponta para o futuro.

(E concordo 100% com ele.)

Lembra ainda que o leitor ainda não consegue ler e editar a sua participação no ambiente.

Perguntei se os comentários também elevam a qualidade do noticiário.

Ele avalia que em parte sim, pois o leitor fiscaliza, ajuda aos administradores do site a corrigir erros.

Porém, o mais importante é o choque dessa fiscalização com a cognição do jornalista, que ainda se surpreende com esse novo mundo colaborativo.

Diz Musoi:

“Que seria natural o responsável pela matéria se envolver com os comentários, reavaliar permanentemente o seu trabalho, isso ainda não está consolidado. Há ainda uma postura muito do século passado, muito do jornalismo de “topo da montanha”, na qual era apenas o jornalista que dizia o que era a informação relevante e qual não era. E o leitor não passava de um chato, que jogava pedra no jornalista e não o acertava. Os produtores de notícia, aqueles que assinam,  ainda pensam muito assim, infelizmente”.

Ele lembra que não há ainda um diálogo entre o repórter e os comentaristas. E quem acaba intermediando algo é a pequena equipe responsável pela interação.

E ele diz algo interessante:

“A minha equipe (de interação) foi criada para deixar de existir.”

Lá na frente, segundo ele, o conceito do jornalismo colaborativo, que basicamente se resume na participação e na relevância do leitor no processo deverá permear o trabalho de todos os jornalistas, “que ainda trabalham com a cabeça de quem produz um jornal impresso”.

Ele informa que há uma pessoa full-time dedicada a essa tarefa de monitorar de longe os comentários. Todo dia, por exemplo,  identificam matérias que podem gerar mais “confusão”, mais polêmica e ficam de olho.

Diz Musoi:

“Ninguém melhor que os próprios leitores que estão transitando ali para nos informar do que esteja em desacordo ali com nossas normas. Não há a menor dúvida que existe um conteúdo grande de conteúdoindevido neste momento publicado no site do Globo”.

(Que é um pouco aquela máxima, “O que o coração não vê, não sente.” Falei mais sobre isso aqui, inclusive citando o Musoi e falo de novo sobre isso mais abaixo.)

Considera que o trabalho do adminstrador do site é fazer os ajustes nas ferramentas para que elas possam melhor gerir o ambiente da colaboração, direcionando minimamente o comportamento da comunidade dentro do que você quer, mas a imprevisibilidade, segundo ele, é imensa.

Diz Musoi:

“Quanto tivermos mais ferramentas, mais organização, estrutura tecnológica mais bem embasada, banco de dados realmente inteligente e uma série de ferramentas que podemos dispor, acredito que este risco tenderá a ser reduzido. É um risco que a gente calculou e assumiu.”.

PergunteiEstaria o administrador saindo de um papel de gestor de conteúdo (papel ou digital) para um gestor de comunidades?

Ele acredita que cada vez mais vamos ter esta função não de gestores de conteúdo na acepção tradicional da palavra, mas gestores de comunidades, do coletivo, ou o nome que vamos chamar.

Perguntei: E qual seria o novo papel do jornalista?

“Não gosto de separar as coisas, hoje estão separadas pelo momento que estamos vivendo. O jornalista mais na frente vai ter a capacidade de produzir a notícia, mas tão importante quanto, ter o papel de “curador de comunidades” ou “curador de conteúdo” gerado pelos usuários. Esse papel de relacionamento que nós temos estanque na minha equipe. Isso vai ter que acabar, o relacionamento vai ter que se dar entre o repórter que escreve a matéria e os comentarias da mesma. Não sou eu que tem que fazer isso. Está tudo errado o que nós fazemos hoje! Estamos apenas no ponto de partida. A evolução disso é incorporar essas preocupações, que passem a ser inerentes ao trabalho de todos os jornalistas essas funções. Vamos ter que ampliar nossos horizontes”.

Perguntei: Tem problema um conteúdo inapropriado que ninguém lê? Certamente o que “bomba” vocês conseguem ter algum tipo de ação?

Quando não “bomba”, é verdade, disse ele, que é possível que passem despercebidas por todo mundo. Mas às vezes uma pessoa só já é suficiente para causar uma celeuma.

Segundo ele, é justamente, por essa pouca visibilidade que pouco visto, que acaba por permitir ao jornal esse tipo de política. Ele considera que quando tiver uma ferramenta mais inteligente e uma comunidade mais bem estruturada.

O que levou o jornal a ter relações diretas com outros serviços públicos, tal como com a Cedae, já que recebem muito conteúdo de leitor. A Cedae criou um canal de comunicação se justificando, ou mesmo indo lá para corrigir, manda e-mail ou entra no próprio sistema do Eu-repórter.

Lembra que os jornais se abrirem para comentários dos leitores sempre foi uma questão polêmica em grandes jornais, principalmente pela questão do direito autoral.

E também da responsabilidade jurídica das opiniões expressas pelos leitores. Quem é o responsável?

Desta forma, acredita que isso tenha levado muitos jornais a adiar a decisão para abrir para comentários. Ou abrem de forma muito discreta. Ou optam, como o New York Times, que permite comentários, mas são pré-aprovados pela equipe da redação.

(Saiu um artigo com ele no Globo, que eu postei aqui, que mostra que a pré-aprovação é inviável do ponto de vista econômico.)

O Globo optou por publicar direto, o que nos leva para um outro problema: como gerenciar?

O volume de comentários é muito grande e eles não têm braços para gerenciar. Em função dessa realidade e por uma estratégia do Globo, resolveram ser mais ousados.

Optaram por um sistema, no qual os comentários passam a ser publicados automaticamente e, dentro do possível, fossem auto-geridos pelos próprios leitores, estimulando-os a denunciar aquilo que fugir das regras estabelecidas, no que for considerado inapropriado.

Fazendo com que a equipe da Interação vá direto ao problema.

Ele informa que a equipe faz a pós-moderação e só tira do ar aquilo que já está publicado, seja por denúncia, seja por uma fiscalização pontual que se faça.

Utilizam também de um recurso de fiscalização mais perto de um determinado assunto, que vai gerar mais polêmica, colocando um jornalista mais perto para acompanhar.

A equipe, mais recentemente, passou a atuar com o Twitter.

O Globo vive hoje uma rediscussão da atuação em redes sociais.

Já tiveram o Globo On-liners (uma espécie de Orkut atrelado ao jornal)  e foi desativado.

Desde lá, tem tido o dever de casa de repensar a estratégia para a rede social, como queremos atuar nelas.

E questões que vêm com este debate:

“Vamos transformar o Globo em uma Rede Social em si?”

Ele acredita que o caminho é melhorar, valorizando os comentários, transformar cada leitor/comentarista dentro de uma rede social.

“Isso poderia dar muito certo”.

Informa que estão no meio desse processo de rediscutir o futuro e reconstruir o site em todas as suas instâncias, inclusive esta das redes sociais.

Conclui:

A Internet é um instrumento democratizante, pois percebemos na pele o poder que um único usuário tem de gerar informação relevante e essa informação rodar o mundo, com impacto, muitas vezes, imenso e imprevisível.

Por enquanto é isso, amigos…que dizem?