Uma tecnologia quando passa a invisível, vira cultura.

Versão 1.1 - 08 de agosto de 2012
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Estive com os alunos do curso de pós-do Senac de Mídias Interativas, neste fim de semana.

Uma aluna confessou o quanto considera confuso o cenário atual com tantas mudanças.

Não, não é ela, somos todos nós que estamos com farol baixo no meio da neblina.

Lembrei a eles de um professor de basquete que tive no passado, que dizia que para marcar bem o adversário é preciso olhar para o umbigo dele.

Lembro bem:

Os braços e as pernas se mexem rápido, porém o umbigo é o centro do corpo, mais lento”.

Guardei a dica e tento praticar ao olhar para a atual Revolução Cognitiva.

Digamos que ela tem duas partes.

  • O centro o DNA da mudança, que se expande – o umbigo, a força principal;
  • E a periferia que é o DNA agindo sobre o corpo social – que são os efeitos secundários, ou o que se vê mais facilmente.

A maior parte das pessoas que estuda e trabalha com o fenômeno se concentra demais na seringa (tecnologia), mas não o que há dentro da seringa e, por sua vez, qual é o efeito que essa vacina cognitiva tem no mundo – o DNA da mudança.

Na minha tese de doutorado (Ciência da Informação – UFF/IBICT), dediquei quatro anos no estudo de um largo conjunto de livros históricos das mudanças dos ambientes de informação no mundo.

Muitos autores têm comparado a atual mudança com a que ocorreu com a chegada do livro impresso. Isso aqui para nós é novidade, mas na academia, entre estes autores, é algo que está cada vez mais consolidado.

(Disse eu em sala de aula que quando temos uma mudança grande – uma crise – é de bom tom que procuremos no passado uma similar, com o mesmo DNA, para nos agarrar como se fosse uma tábua num naufrágio.)

Assim, podemos dizer que a atual Revolução Cognitiva digital é similar à Revolução Cognitiva do livro impresso, como foi também com a chegada da escrita, do livro manuscrito. Tais mudanças têm o poder de troca de água do aquário do mundo.

O ser humano é um ser social, diferente dos animais.

Somos fortemente dependente dos ambientes cognitivos.

Se estes sofrem uma mudança brusca, todo o aquário é afetado por ela.

Assim, podemos dizer que o DNA da mudança é tecnológico na entrada, pois é o que permite a “troca de água” mas não é na saída, pois há uma mudança cultural do ambiente.

Portanto, ma tecnologia quando passa a invisível, vira cultura – e é desse efeito da vacina que estamos falando.

Quais são as causas, assim, de uma Revolução Cognitiva?

  • População dá um salto de tamanho (de 1 para 7 em 200 anos);
  • Que obriga o setor produtivo a  inovar;
  • Para inovar é preciso melhorar a forma de se comunicar/informar/conhecer;
  • Para isso, é preciso aumentar a participação, a colaboração, a cooperação;
  • Nos levando a desintermediação dos antigos poderes – modelo de gestão, de como as decisões são tomadas.
Digamos que o modelo de tomada de decisão atual é lento e pouco eficaz, pois boa parte da população já experimenta  uma nova forma de decidir e quer que a sociedade acompanhe essa nova cultura – simples assim. As pessoas sentem que precisa ser daquele jeito – é o efeito invisível de sermos mais gente, tentando viver melhor.

Ou seja, há uma latência no ar por mais participação, desintermediação, que se expande e se torna tangível quando uma tecnologia cognitiva desintermediadora aparece.

Não é algo planejado, mas todo mundo fica ali vendo que precisa ser feito algo e vai tentando, procurando até que a tal tecnologia começa a atender aquela demanda latente.

No fundo, o que estou dizendo é que mais gente no mundo pede INAPELAVELMENTE um novo tipo de exercício de prática de tomada de decisão, pela ordem, vai ocorrendo na produção, inovação, comunicação, desintermediação.

E aí começa-se a atender mais com menos.

Ou seja, a democracia (e os modelos de gestão) de 1 bilhão de pessoas (de 1800) não servem para a que precisa ser construída para 7 bilhões (em 2012), com perspectiva de 9 bi na próxima década.

O que estamos falando agora é que estamos passando um macro-processo de desintermediação, abrindo as bases de dados do mundo (públicas e privadas), que foram digitalizadas nas últimas décadas, mas estavam fechadas, para a intensa participação dos consumidores/cidadãos.

Isso está aí a olhos visto, sempre com o objetivo de acelerar o tempo de resposta entre a demanda e a oferta.

  • Fase 1 – banco eletrônico, compra de ingresso pela internet, retirada de documentos em organizações eletrônicas;
  • Fase 2 – participação cada vez maior dos usuários em acessar e alterar os bancos de dados, que vamos chamar de organizações colaborativas (para onde estamos indo).

A primeira é um passo importante, mas é apenas um primeiro passo, sem uma mudança cultural significativa, pois a estrutura de gestão não se modifica, pois não se altera a forma como se decide, apenas se deixa acessar os dados

Na segunda, a desintermediação se dá, pois começa a se mudar a forma de se tomar decisões, que é a mudança na maneira de exercer o poder, através da troca com o mundo exterior, via banco de dados cada vez mais interativos – comentários sobre produtos, estrelas, avaliação, mudança na produção/serviço, conforme interação;

Estamos indo na direção de organizações mais porosas, com paredes mais finas e mais voltadas para fora e menos para dentro.

É aqui que estamos e para lá que vamos…

Por aí…

Que dizes?