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Resumo do artigo feito pelo Tio Chatinho:

Neste artigo, Nepô apresenta a necessidade urgente de substituir a Filosofia pelo Formacionismo diante da passagem para a Civilização 2.0. O autor argumenta que o salto demográfico e a transição da Gestão para a Curadoria geram descentralização e potencialização, exigindo que cada indivíduo tome mais decisões e assuma maior responsabilidade sobre a própria trajetória. Como estudar Filosofia é opcional, mas passar por uma Formação Conceitual é inevitável para todo Sapiens, a Filosofia tradicional — focada em cronologias e autocentrada — tornou-se disfuncional. Assim, faz-se necessária uma reconceituação ambientológica que institua o Formacionismo: um novo ambiente de diálogo dedicado a investigar, testar e aprimorar de modo consciente a formação existencial humana, tendo como métrica real o impacto direto na qualidade de vida das pessoas e da sociedade.

Vamos ao Artigo:

“A mente não precisa ser preenchida como uma garrafa; precisa ser acesa para criar o impulso de pensar por si mesma.” –  Plutarco

Quanto mais disruptiva é uma Renascença Civilizacional, mais ambientológica precisa ser a sua Reconceituação.

Há uma cadeia causal que temos desenvolvido na Bimodais para tentar compreender as grandes mudanças da história humana.

São duas décadas de pesquisa para responder à seguinte pergunta: o que é o Digital, de onde viemos, onde estamos e para onde vamos?

A resposta começa assim:

Quando aumenta a Complexidade Demográfica, os Modelos de Cooperação existentes começam a atingir seus limites e precisam ser reformatados.

Novas mídias descentralizadoras surgem e permitem criar Modelos de Cooperação mais descentralizados.

Modelos de Cooperação mais descentralizados, por sua vez, aumentam a demanda pela Potencialização do Sapiens.

Quanto mais responsabilidade, mais cada um tem que desenvolver a sua singularidade para tomar decisões mais personalizadas.

E quanto maior a Potencialização, maior a necessidade de rever a formação das pessoas para que consigam lidar com o aumento da responsabilidade sobre a própria vida.

Podemos resumir a cadeia da seguinte maneira:

↑ Complexidade Demográfica → ↑ Descentralização → ↑ Potencialização → ↑ Reconceituação.

Até aqui, entretanto, vínhamos tratando a Reconceituação principalmente como uma revisão dos conceitos.

A atual Renascença Civilizacional está nos obrigando a dar um passo além.

Não estamos vivendo um aumento qualquer da Complexidade Demográfica.

Em pouco mais de dois séculos, a população mundial saltou da casa de um bilhão para oito bilhões de pessoas.

A hipótese Bimodal é que mudanças dessa magnitude exigem ajustes civilizacionais mais profundos.

Não estamos, portanto, diante apenas de uma nova tecnologia, de novos comportamentos ou de novas organizações.

Estamos assistindo à passagem de um Modelo de Cooperação baseado predominantemente na Gestão (baseada na oralidade e escrita) para outro baseado cada vez mais na Curadoria (que além da oralidade e escrita, incorpora rastros digitais, algo parecido com as formigas)..

A Curadoria permite que muito mais gente participe das decisões, faça escolhas, produza, publique, avalie, recomende, empreenda e desenvolva trajetórias mais singulares.

A descentralização aumenta a possibilidade de escolha.

E quanto mais escolhas temos, mais precisamos aprender a escolher.

A Civilização 2.0, portanto, não exige apenas um novo Modelo de Cooperação.

Ela exige um novo Modelo de Formação, tanto a Básica quanto a Avançada, para que possamos lidar com um Sapiens muito mais responsável.

Podemos detalhar melhor essa cadeia:

↑ Descentralização → ↑ Potencialização → ↑ Escolhas → ↑ Responsabilidade Individual → ↑ necessidade de uma Formação Conceitual mais consciente.

O problema formacional da Civilização 2.0 pode ser resumido da seguinte maneira: estamos aumentando radicalmente a liberdade de escolha sem aumentar, na mesma proporção, a qualidade da Formação Conceitual necessária para escolher.

Aqui começa o problema que precisamos enfrentar. A relação entre mais descentralização, escolhas, autonomia e responsabilidade já aparece como elemento central da Civilização 2.0 na pesquisa Bimodal.

Toda grande descentralização civilizacional exige uma Renascença Formacional

O Sapiens da Civilização 1.0 podia ser muito mais passivo.

Era uma sociedade fortemente baseada na centralização e massificação, o que nos levava para o seguinte:

  • Poucos produziam e muitos consumiam.
  • Poucos publicavam e muitos liam.
  • Poucos apareciam na televisão e milhões assistiam.
  • Poucos definiam os produtos disponíveis e milhões escolhiam entre as alternativas previamente oferecidas.

A descentralização digital começa a alterar estruturalmente esse cenário.

O novo Sapiens passa a ter muito mais possibilidades de construir uma trajetória singular.

Isso é Potencialização.

Mas existe um problema.

Aumentamos a Potencialização sem aumentar, na mesma proporção, a capacidade das pessoas de lidar com ela.

Oferecemos mais escolhas sem ensinar melhor a escolher.

Aumentamos a autonomia sem desenvolver adequadamente a responsabilidade.

Aumentamos as possibilidades de expressão sem necessariamente melhorar a capacidade de reflexão.

Aumentamos os caminhos possíveis sem melhorar os mapas existenciais.

O Sapiens 1.0 conseguia operar com uma Formação Conceitual menos consciente porque vivia num ambiente no qual boa parte das escolhas já vinha previamente encaminhada pela família, escola, organizações, 

Estado, mídia e demais estruturas centralizadas.

O Sapiens 2.0 passa progressivamente a receber uma pergunta muito mais pesada:

E você, o que vai escolher?

Quanto mais decisões passam das instituições para os indivíduos, maior se torna o impacto da qualidade da Formação Conceitual sobre as trajetórias individuais.

A Formação Conceitual sempre foi necessária. A Civilização 2.0 aumenta radicalmente a importância de torná-la muito mais consciente do que no passado.

A própria pesquisa anterior da Bimodais já identificava que a Formação Básica Obrigatória incorpora linguagem, valores, crenças, hábitos, modelos de felicidade e de cooperação, vindos não apenas da educação formal, mas também das mídias e do senso comum.

Reconceituação, assim, não é, de modo algum, apenas revisão de conceitos.

Dependendo da demanda, podemos ter uma revisão ambientológica, revendo não só os conceitos, mas como eles estão sendo produzidos.

Quando pensamos numa Renascença, normalmente imaginamos o aparecimento de novas ideias.

Determinados conceitos deixam de funcionar e precisam ser substituídos por outros.

Isso realmente acontece.

Porém, quanto mais disruptiva é a mudança civilizacional, menos podemos nos limitar à revisão dos conceitos existentes.

Precisamos começar a perguntar também:

Os Ambientes Científicos de Diálogo, que analisam a sociedade, nos quais esses conceitos são produzidos continuam funcionais?

É uma pergunta ambientológica e não apenas fenomenológica.

Não estamos mais discutindo apenas se determinado tijolo precisa ser substituído.

Estamos perguntando se as oficinas que produzem os tijolos continuam sendo úteis.

A Reconceituação Conceitual troca os tijolos. A Reconceituação Ambientológica revê as próprias oficinas que produzem, selecionam, organizam e disseminam os tijolos.

Nossa hipótese é que a profundidade da Reconceituação necessária é proporcional à profundidade da disrupção civilizacional.

É justamente nesse ponto que precisamos discutir o futuro da Filosofia.

A Filosofia cumpriu um papel fundamental

A Filosofia foi um dos Ambientes de Diálogo Científicos mais importantes criados pelo Sapiens.

Grandes Conceituadores Fortes ajudaram a humanidade a refletir sobre questões estruturantes da existência:

  • Quem somos?
  • Como devemos viver?
  • O que é uma sociedade justa?
  • Como podemos conhecer a realidade?
  • O que é uma vida boa?

Sócrates, Platão, Aristóteles, os estóicos e tantos outros produziram conceitos que continuam relevantes milhares de anos depois.

O problema, portanto, não são os filósofos.

Não precisamos jogar fora o patrimônio conceitual produzido pela Filosofia.

O problema que estamos identificando é outro.

O problema é o ambiente.

A Filosofia nasceu em torno do “amor à sabedoria”.

Mas “sabedoria” é uma finalidade excessivamente aberta.

Eu posso querer ser sábio, ou não, abrindo uma escolha que, no fundo, não existe.

Você vai ser formado existencialmente, o que vai mudar é a consciência dessa formação e a sua qualidade para definir uma vida melhor ou pior.

Ao longo do tempo, o próprio desenvolvimento da Filosofia passou a ser, em muitos casos, uma finalidade.

  • Estudamos Filosofia.
  • Ensinamos Filosofia.
  • Pesquisamos Filosofia.
  • Produzimos História da Filosofia.
  • Criamos especialidades dentro da Filosofia.
  • Debatemos o que determinado filósofo realmente quis dizer.
  • Perguntamos o que determinado conceito agrega à Filosofia.

E, progressivamente, podemos cair numa inversão típica do Meísmo (confundir os fins com os meios): o meio passa a ser mais importante do que o fim.

É como construir uma casa originalmente para que as pessoas morem melhor e, depois de algum tempo, passar a considerar a casa mais importante do que os moradores que a habitam.

A arquitetura passa a existir para a própria arquitetura.

O problema não é termos um campo que estuda a sabedoria.

O problema é não termos um campo que assuma explicitamente a responsabilidade de estudar e aprimorar continuamente a Formação Conceitual do Sapiens.

Um dos sintomas dessa inversão aparece na maneira como frequentemente apresentamos Filosofia às novas gerações.

Começamos pela cronologia:

Primeiro veio determinado filósofo.

Depois outro.

Depois veio determinada escola.

Depois outra.

Estudamos quando nasceram, em que contexto viveram, quais autores influenciaram quais outros autores.

Tudo isso pode ter valor para quem deseja estudar História da Filosofia.

Mas existe uma pergunta anterior:

Qual dessas ideias ajuda o Sapiens de hoje a viver melhor hoje em dia?

Na Medicina, ninguém precisa estudar prioritariamente a cronologia dos grandes médicos para poder se beneficiar dos conhecimentos acumulados pela área.

A História da Medicina existe e tem valor.

Mas ela não organiza toda a Medicina.

Por que deveríamos organizar a formação conceitual do Sapiens predominantemente pela cronologia dos filósofos?

O Formacionismo propõe inverter essa lógica. Não começar pelos autores. Começar pelos problemas do Sapiens.

Vejamos:

  • Quem é o Sapiens?
  • Como o Sapiens avança na história?
  • Quais formas de organização social favorecem nossa sobrevivência?
  • Como podemos viver melhor?
  • Como lidar com escolhas?
  • Como desenvolver nossos potenciais?
  • Como administrar relações?
  • Como lidar com a finitude?
  • Como aumentar nossa qualidade de vida?

Depois de formulados os problemas, vamos procurar no gigantesco patrimônio conceitual humano quem pode nos ajudar.

Não precisamos abandonar os Conceituadores Fortes do passado que se autodenominavam filósofos.

Precisamos apenas reorganizá-los.

É justamente aqui que a proposta pode ser mal compreendida.

Questionar a Filosofia como Ambiente de Diálogo não significa negar os filósofos.

É exatamente o contrário.

Queremos aproveitar melhor os Conceituadores Fortes do passado.

O Formacionismo pode perguntar:

  • O que Sócrates agrega à formação do Sapiens?
  • O que Aristóteles agrega?
  • O que os estóicos agregam?
  • O que Nietzsche agrega?
  • O que Ayn Rand agrega?
  • O que Maslow agrega?
  • O que Csikszentmihalyi agrega?
  • O que o Ikigai agrega?

O que diferentes linhas da Psicologia, da Antropologia, da Biologia e da Ciência Social agregam?

Pouco importa a placa que estava na porta do departamento em que determinada ideia foi produzida.

O critério passa a ser outro:

Essa ideia ajuda ou não ajuda a formar Sapiens capazes de viver melhor na Civilização 2.0?

Os autores deixam de ser organizados prioritariamente por campos e cronologias e passam a ser organizados pelos problemas humanos que ajudam a enfrentar.

É uma reorganização do patrimônio conceitual do Sapiens em torno de uma finalidade mais clara.

É por isso que estamos propondo uma ruptura.

Nossa hipótese é que a Filosofia, como Ambiente de Diálogo Central para organizar a formação conceitual do Sapiens, hoje mais atrapalha do que ajuda.

Não porque seu patrimônio intelectual tenha perdido valor.

Mas porque sua arquitetura não responde adequadamente às demandas formacionais da Civilização 2.0.

Por isso, propomos outro campo: o Formacionismo.

O Formacionismo parte de uma finalidade explícita:

Pesquisar, comparar, desenvolver e disseminar as melhores formas de formar o Sapiens para viver mais e melhor.

Mas agora podemos tornar essa definição muito mais precisa.

O Formacionismo é o Ambiente de Diálogo dedicado a tornar cada vez mais consciente, consistente e funcional a Formação Conceitual Obrigatória do Sapiens, avaliando seus resultados pela capacidade de ajudar pessoas e sociedades a viver mais e melhor.

Essa definição estabelece quatro elementos:

  • Fenômeno: a Formação Conceitual do Sapiens.
  • Problema: ela ocorre obrigatoriamente, mas de maneira dispersa e apenas parcialmente consciente.
  • Missão: tornar essa formação progressivamente mais consciente, forte e funcional.
  • Métrica: seus efeitos sobre a qualidade de vida das pessoas e da sociedade no curto, médio e longo prazo.

Essa talvez seja a principal guinada conceitual da proposta.

Estudar Filosofia é opcional. Ser conceitualmente formado não é.

Uma pessoa pode passar a vida inteira sem estudar Filosofia.

Pode nunca ler Platão.

Pode nunca estudar Kant.

Pode nunca entrar numa Faculdade de Filosofia.

Isso é uma escolha possível.

Mas não existe a possibilidade de um Sapiens não passar por uma Formação Conceitual.

Desde que nasce, ele incorpora conceitos sobre certo e errado, felicidade, dinheiro, trabalho, amor, família, sucesso, fracasso, autoridade, sociedade, morte e sobre si mesmo.

O Sapiens nasce dentro de um ambiente conceitual que já existia antes dele.

Parte dessa formação é consciente. 

Grande parte dela é incorporada antes mesmo que a pessoa tenha capacidade para refletir criticamente sobre aquilo que está incorporando.

A pesquisa anterior da Bimodais já trabalhava com essa ideia por meio da Formação Básica Obrigatória: a necessidade da formação é universal, embora seu conteúdo varie conforme os diferentes ambientes civilizacionais.

É justamente aqui que aparece a lacuna que justifica o Formacionismo.

O Formacionismo não propõe que o Sapiens passe a ter uma Formação Conceitual.

Ela já existe.

O Formacionismo propõe tornar cada vez mais consciente um fenômeno que inevitavelmente já ocorre.

Hoje, família, escola, mídias, religiões, organizações, relações e diferentes ambientes culturais participam dessa formação.

Temos também campos especializados que estudam diferentes partes do problema.

Mas falta, na nossa hipótese, um Ambiente de Diálogo que diga explicitamente:

A Formação Conceitual do Sapiens é o nosso problema central. Nossa função é reunir, comparar, testar, revisar e organizar os melhores conceitos disponíveis para melhorar continuamente essa formação.

Essa é a lacuna que o Formacionismo pretende ocupar.

A singularidade da Formação Conceitual do Sapiens

Outras espécies também passam por processos de aprendizado e formação comportamental.

Mas o Sapiens possui uma característica particular: grande parte da sua sobrevivência e da organização da sua vida depende de conceitos produzidos, acumulados e transmitidos culturalmente.

Não estamos tratando apenas de aprender a executar determinadas ações.

Estamos tratando de incorporar conceitos sobre quem somos, como devemos viver, como a sociedade funciona, o que vale a pena perseguir e quais critérios devemos utilizar para tomar decisões.

É essa Formação Conceitual que interessa particularmente ao Formacionismo.

Ela não é um adereço intelectual.

Ela participa da construção da maneira pela qual o Sapiens interpreta o mundo e conduz a própria trajetória.

Por isso, a questão deixa de ser simplesmente:

“O Sapiens será formado?”

E passa a ser:

“Que Formação Conceitual o Sapiens receberá, com que grau de consciência e quais serão os efeitos dessa formação sobre sua vida?”

O Formacionismo transforma essa pergunta num problema permanente de investigação.

O Formacionismo existiria mesmo que nunca tivesse existido a Filosofia

Essa distinção permite dar um passo importante.

O Formacionismo não nasce porque existe um problema chamado Filosofia.

Ele nasce porque existe um fenômeno chamado Formação Conceitual do Sapiens que precisa ser melhor compreendido e continuamente aperfeiçoado.

A Filosofia entra na história depois, quando perguntamos se ela é hoje o melhor Ambiente de Diálogo para organizar essa tarefa.

Podemos fazer um teste lógico simples.

Imagine que nunca tenha existido um campo chamado Filosofia.

Ainda assim, as crianças nasceriam.

Ainda assim, aprenderiam uma língua.

Ainda assim, incorporariam valores, crenças e conceitos.

Ainda assim, precisam formar critérios sobre felicidade, relações, trabalho, dinheiro, sociedade, verdade e sobre a própria existência.

Portanto, continuaria existindo o problema da Formação Conceitual.

E continuaria fazendo sentido criar um Ambiente de Diálogo dedicado conscientemente a aperfeiçoá-la.

A Filosofia, portanto, não é a razão da existência do Formacionismo.

A Formação Conceitual Obrigatória do Sapiens é a razão da existência do Formacionismo.

Isso muda o centro de gravidade da proposta.

Não estamos criando o Formacionismo porque queremos combater a Filosofia.

Estamos criando o Formacionismo porque identificamos um fenômeno que, na nossa avaliação, não possui hoje um Ambiente de Diálogo organizado explicitamente em torno dele.

E por que não reformar simplesmente a Filosofia?

A pergunta é legítima.

Por que não manter a Filosofia e apenas ampliar sua missão?

Porque a mudança que estamos propondo não é apenas de conteúdo.

Ela altera o fenômeno organizador do campo, sua finalidade e sua métrica.

O centro deixa de ser a sabedoria ou a própria tradição filosófica.

O centro passa a ser a Formação Conceitual do Sapiens.

Os Conceituadores Fortes deixam de ser organizados prioritariamente pela cronologia e pelos departamentos de origem e passam a ser organizados pelos problemas formacionais que ajudam a enfrentar.

E a métrica final deixa de ser a robustez conceitual do próprio campo.

A pergunta passa a ser:

Quando essa proposta é incorporada à Formação Conceitual das pessoas, o que acontece com a qualidade de vida no curto, médio e longo prazo?

O Sapiens 2.0 precisa de conceitos muito mais pé no chão e muito menos criados em cima da laje olhando para as estrelas que passam.

Se amanhã a Filosofia passasse a assumir integralmente a Formação Conceitual como seu fenômeno central, reorganizasse seu patrimônio em torno dos problemas formacionais e adotasse a qualidade de vida como métrica externa, ela teria se transformado funcionalmente em Formacionismo, mesmo que continuasse utilizando o nome Filosofia.

É justamente isso que caracteriza uma Reconceituação Ambientológica e não apenas Conceitual.

Formação Básica e Formação Avançada

O Formacionismo precisa atuar em pelo menos dois níveis.

Existe uma Formação Básica, necessária para que cada pessoa consiga administrar melhor sua própria existência, da hora que nasce até começar a dar os primeiros passos e aprender a operar com conceitos mais sofisticados.

E existe uma Formação Avançada, voltada para o Sapiens compreender quem ele é, como avança na história, como deve viver e qual é a melhor forma de organizar uma sociedade.

A necessidade de uma Formação Básica é universal, mas o seu conteúdo não é. Diferentes ambientes civilizacionais exigem diferentes formações, algo que já aparecia na formulação anterior da FBO Bimodal.

É justamente por isso que a chegada da Civilização 2.0 exige uma revisão formacional.

Não podemos aumentar radicalmente a responsabilidade individual e continuar formando pessoas predominantemente com paradigmas desenvolvidos para um mundo muito mais centralizado.

Esse é o descompasso que começamos a observar.

Formacionismo, Conhecimentologia e Educação

Essa nova definição começa também a organizar melhor diferentes problemas que hoje aparecem misturados.

O Formacionismo pergunta principalmente:

Qual Formação Conceitual ajuda mais o Sapiens a viver melhor?

A Conhecimentologia, como subcampo do Formacionismo, pode se dedicar a outra questão:

Como produzimos, selecionamos, validamos, revisamos e descartamos os conhecimentos que serão incorporados à Formação Conceitual?

E existe ainda outro problema, hoje tratado principalmente pela Educação e pela Pedagogia:

Como fazer essa formação chegar às pessoas e ser efetivamente incorporada?

Primeiro precisamos discutir qual formação queremos oferecer e por quê.

Depois podemos investigar quais são as melhores maneiras de realizar essa passagem.

Isso não significa que os atuais campos da Educação não discutam conteúdos e finalidades. Significa apenas que o Formacionismo propõe reorganizar funcionalmente essas diferentes perguntas dentro de um ambiente mais amplo dedicado à Formação Conceitual do Sapiens.

O Formacionismo não pode virar um novo sindicato voltado para ele mesmo

Criar o Formacionismo não significa criar uma nova verdade oficial.

Pelo contrário.

O campo precisa admitir diferentes correntes.

A Bimodais propõe o Formacionismo Bimodal.

Outros poderão propor outras abordagens.

Uma corrente pode discordar da nossa visão sobre o Sapiens.

Outra pode discordar da nossa visão da história.

Outra pode propor diferentes critérios de qualidade de vida.

Outra pode considerar equivocada a relação que estabelecemos entre Complexidade Demográfica, Descentralização e Potencialização.

Ótimo.

O campo precisa permitir essa disputa.

O que não pode mudar é a pergunta final:

Essas propostas, ao se tornarem ativas na vida, ajudam o Sapiens a viver melhor?

O Formacionismo não pode repetir o erro que estamos diagnosticando na Filosofia e transformar o próprio campo numa finalidade.

No dia em que melhorar o Formacionismo se tornar mais importante do que melhorar a vida das pessoas, teremos recriado o problema com outro nome.

Isso não significa que tornar o Formacionismo conceitualmente mais robusto seja irrelevante.

Significa apenas que a robustez do campo não pode ser sua métrica final.

Mas um campo que nasce afirmando claramente: você não tem escolha vai ser formado – vamos ver como isso pode ser feito de forma adequada.

É bem diferente de um que nasce e diz: olha, se você quiser, vem aqui ver as minhas propostas para uma vida melhor.

E, a partir disso, saímos de uma conversa de um campo voltado para ele mesmo, da lógica pela lógica, mais do resultado do que foi proposto e o que aconteceu na vida das pessoas quando colocaram as propostas para “rodar”.

Essa melhoria, quando incorporada à Formação Conceitual, aumentou a qualidade de vida das pessoas e da sociedade no curto, médio e longo prazo?

As diferentes correntes formacionistas poderão oferecer respostas diferentes.

Poderão discordar sobre o que é qualidade de vida, sobre como medi-la, sobre quais conceitos devem integrar a formação e sobre quais resultados considerar relevantes.

Essa diversidade não está fora do Formacionismo.

Ela é justamente a disputa que deve ocorrer dentro dele.

O que organiza o campo não é uma resposta única.

É um problema comum: melhorar continuamente a Formação Conceitual do Sapiens.

Nossa hipótese é que o aumento radical da Complexidade Demográfica está provocando uma descentralização igualmente radical dos Modelos de Cooperação.

A hipótese será julgada pelo tempo e pela realidade.

Talvez o caminho de validação ocorra inclusive na ordem inversa daquela que seria desejável.

Primeiro, ficará cada vez mais evidente a descentralização.

Depois, ficará mais evidente o aumento da Potencialização.

Em seguida, aparecerá com maior clareza o descompasso entre a quantidade de escolhas disponíveis e a capacidade das pessoas de lidar com elas.

E talvez, somente então, se torne evidente a necessidade de reorganizar o próprio ambiente responsável por pensar a formação.

Assim, podemos chegar por último justamente ao que deveria vir primeiro.

Criar o novo campo.

A maior Renascença exige uma Renascença Ambientológica

A Civilização 2.0 não está apenas colocando novas ferramentas nas mãos do velho Sapiens.

Ela está exigindo outro tipo de Sapiens:

  • Mais autônomo.
  • Mais singular.
  • Mais responsável pelas próprias escolhas.
  • Mais capaz de construir a própria trajetória.
  • Mais potencializado.

A passagem da Gestão para a Curadoria é uma ruptura no Modelo de Cooperação.

O Formacionismo propõe uma ruptura correspondente no Modelo de Formação.

As duas mudanças fazem parte do mesmo fenômeno.

Por isso, talvez a principal novidade dessa reflexão possa ser resumida assim:

Quanto maior a disrupção civilizacional, mais profunda precisa ser a Renascença. E quanto mais profunda a Renascença, menos ela pode se limitar a rever conceitos e mais precisa rever os próprios Ambientes de Diálogo.

Mas agora podemos acrescentar a descoberta que faltava para fechar a proposta:

Estudar Filosofia é opcional. Ser conceitualmente formado não é.

O Sapiens será conceitualmente formado de qualquer maneira.

A questão é se continuaremos tratando essa formação como algo disperso e parcialmente consciente ou se criaremos um Ambiente de Diálogo que assuma explicitamente a responsabilidade de estudá-la, organizá-la, testá-la e aperfeiçoá-la continuamente.

Para o áudio:

  • O Formacionismo passa a ter como objeto central a Formação Conceitual Obrigatória do Sapiens.
  • Estudar Filosofia é opcional, mas ser conceitualmente formado não é.
  • O Formacionismo transforma uma Formação Conceitual hoje dispersa e parcialmente consciente em um problema consciente e permanente de investigação.
  • A Civilização 2.0 aumenta exponencialmente a Taxa de Autonomia e Responsabilidade de cada Sapiens.
  • Quanto maior a Taxa de Autonomia e Responsabilidade, maior precisa ser a Robustez da Formação Conceitual.
  • Além de mais robusta, a Formação Conceitual do Sapiens 2.0 precisa ser muito mais consciente.
  • O Formacionismo cria um ambiente para diferentes propostas formacionais competirem, em vez de impor uma formação única.
  • A métrica das propostas formacionistas passa a ser seus efeitos sobre a qualidade de vida no curto, médio e longo prazo.
  • A crítica à Filosofia deixa de ser o ponto de partida e passa a ser consequência do diagnóstico da nova demanda formacional.
  • A nova cadeia fica: mais Complexidade → mais Descentralização → mais Potencialização → mais Autonomia e Responsabilidade → mais Robustez e Consciência Formacional → Reconceituação Ambientológica.

Frases de destaque:

E quanto mais escolhas temos, mais precisamos aprender a escolher.

  1. Estamos aumentando radicalmente a liberdade de escolha sem aumentar, na mesma proporção, a qualidade da Formação Conceitual necessária para escolher.
  2. Aumentamos os caminhos possíveis sem melhorar os mapas existenciais.
  3. Quanto mais decisões passam das instituições para os indivíduos, maior se torna o impacto da qualidade da Formação Conceitual sobre as trajetórias individuais.
  4. A Formação Conceitual sempre foi necessária. A Civilização 2.0 aumenta radicalmente a importância de torná-la muito mais consciente do que no passado.
  5. Quanto maior a disrupção civilizacional, mais profunda precisa ser a Renascença. E quanto mais profunda a Renascença, menos ela pode se limitar a rever conceitos e mais precisa rever os próprios Ambientes de Diálogo.
  6. A Reconceituação Conceitual troca os tijolos. A Reconceituação Ambientológica revê as próprias oficinas que produzem, selecionam, organizam e disseminam os tijolos.
  7. Você vai ser formado existencialmente, o que vai mudar é a consciência dessa formação e a sua qualidade para definir uma vida melhor ou pior.
  8. O Formacionismo propõe inverter essa lógica. Não começar pelos autores. Começar pelos problemas do Sapiens.
  9. A Formação Conceitual do Sapiens é o nosso problema central. Nossa função é reunir, comparar, testar, revisar e organizar os melhores conceitos disponíveis para melhorar continuamente essa formação.
  10. O Sapiens 2.0 precisa de conceitos muito mais pé no chão e muito menos criados em cima da laje olhando para as estrelas que passam.

 

É isso, que dizes?

Entrar para a Bimodais convidar ou agenciar Nepô para uma palestra:
palestras.nepo.com.br

O link para o Glossário Bimodal:

https://bit.ly/glossbimodais

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