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Resumo do artigo feito pelo Tio Chatinho:

Neste artigo, Nepô apresenta a relação estrutural entre complexidade demográfica, tecnopossibilidades midiáticas e topologia de poder, demonstrando que o aumento populacional não conduz de forma automática à descentralização. Ele esclarece que a centralização massificante do século XX cumpriu uma função sobrevivenciológica transitória diante da ausência de canais adequados, mas gerou um custo alto ao reduzir a singularidade humana e a inovação. Com a emergência das mídias digitais e da curadoria, torna-se tecnicamente viável coordenar a sociedade pelas pontas sem recorrer à pasteurização, o que conecta as fórmulas $S = D/C$, $S = P/D$ e $S = R/P$ para demonstrar que a transição civilizacional demanda, obrigatoriamente, a potencialização do indivíduo e uma profunda reconceituação formativa para sustentar a autonomia na Civilização 2.0.

Vamos ao Artigo:

“Os homens criam as ferramentas e, em seguida, as ferramentas recriam os homens.” – Marshall McLuhan.

Existe uma aparente, mas falsa, contradição na nossa proposta sobre o novo Motor da História baseada nos estudos sobre o Digital.

Temos defendido na Bimodais a seguinte regra estrutural:

Quanto maior é a Complexidade Demográfica, maior é a necessidade de descentralização da sociedade.

É daí que surge a fórmula:

S = D/C

Na qual:

  • S = Sustentabilidade;
  • D = Descentralização;
  • C = Complexidade Demográfica.

A fórmula sugere que, conforme aumenta o número de Sapiens no planeta e também a diversidade entre eles, precisamos distribuir progressivamente decisões e responsabilidades.

Porém, quando observamos determinados momentos da Macro História, aparece uma questão interessante.

Se mais complexidade demanda mais descentralização, por que tivemos períodos de forte crescimento populacional acompanhados justamente pelo aumento da centralização?

O século passado é um ótimo exemplo.

A população cresceu fortemente e assistimos ao fortalecimento de grandes Estados, grandes empresas, grandes sistemas educacionais, grandes veículos de comunicação e enormes estruturas hierárquicas.

Não deveríamos ter caminhado justamente na direção contrária?

É essa aparente contradição que precisamos aprofundar.

Complexidade Demográfica não produz automaticamente descentralização.

A descentralização é o modelo mais sustentável no longo prazo, mas na conjuntura, no curto e médio prazo, a centralização acaba sendo a opção mais viável

O primeiro erro é imaginar uma relação automática:

Mais Complexidade → Mais Descentralização.

Não é bem assim.

O aumento da Complexidade Demográfica cria uma demanda por descentralização, mas não necessariamente a possibilidade de realizá-la, pois é preciso o surgimento de um novo modelo de comunicação, que viabilize o início de uma cooperação mais descentralizada.

A possibilidade depende das Tecnopossibilidades Midiáticas disponíveis em cada momento histórico.

Uma sociedade não descentraliza apenas porque seria melhor descentralizar.

Ela precisa dispor de Tecnologias Cognitivas capazes de permitir que decisões e processos sejam distribuídos sem que o sistema entre em colapso.

Temos, portanto, três elementos que precisam estar relacionados:

Complexidade Demográfica + Mídias Descentralizadoras disponíveis + que permitam uma nova Topologia de Poder mais descentralizada.

A Topologia de Poder define como o poder está distribuído na sociedade. Ela pode ser mais ou menos centralizada.

Eis a regra:

  • Quanto mais decisões são tomadas por poucos, mais centralizada é a Topologia de Poder;
  • Quanto mais decisões podem ser tomadas pelas pontas, mais descentralizada ela se torna.

A questão central passa a ser:

Qual Topologia de Poder é possível diante de determinada Complexidade Demográfica e das mídias disponíveis naquele momento?

Essa pergunta nos ajuda bastante a compreender a Macro História.

Quando a complexidade aumenta e não podemos descentralizar de maneira ampla, precisamos de modelos de comunicação que nos permitam essa alternativa.

Imaginemos uma sociedade cuja população começa a crescer aceleradamente.

Temos:

↑ população → ↑ Complexidade Demográfica → ↑ dificuldade de coordenação.

O ideal seria distribuir mais decisões pelas pontas.

Porém, existe um problema.

Se as mídias disponíveis não permitem uma coordenação descentralizada eficiente, a sociedade precisa encontrar outra saída.

Qual?

Centralizar.

Parece contraditório, mas não é.

Diante de uma complexidade crescente e sem ferramentas adequadas para descentralizar, cria-se um centro cada vez mais forte para coordenar aquilo que as pontas ainda não conseguem coordenar entre si.

Temos então:

↑ Complexidade → ↑ necessidade de coordenação → ausência de Tecnopossibilidades descentralizadoras → ↑ Centralização.

A centralização, nesse contexto, não deve ser analisada apenas como desejo de controle de determinadas elites.

Ela também cumpre uma função sobrevivenciológica.

É uma resposta possível diante das limitações midiáticas existentes.

O século XX nos oferece um bom laboratório, pois  foi o auge da centralização midiática.

Tivemos um aumento brutal da população e, ao mesmo tempo, a consolidação de mídias extremamente centralizadoras.

Rádio e televisão permitiram algo inédito: poucos centros passaram a falar simultaneamente para milhões de pessoas. Jornais de massa já caminhavam nessa direção.

Rádio e televisão ampliaram exponencialmente esse processo.

A Topologia Midiática era basicamente:

Poucos → Muitos.

Poucos produziam.

Poucos selecionavam.

Poucos definiam a agenda.

E milhões recebiam.

A mídia centralizada se encaixava perfeitamente numa sociedade que precisava coordenar populações cada vez maiores sem ainda possuir ferramentas capazes de permitir a participação massiva das pontas.

O século XX foi, assim, o grande momento da massificação.

  • Produção em massa.
  • Educação em massa.
  • Comunicação em massa.
  • Consumo em massa.
  • Organizações em massa.
  • Cultura de massa.

A Civilização 1.0 precisava padronizar para ganhar escala. 

Uma Topologia de Poder muito centralizada precisa necessariamente baixar a taxa de singularidade das pessoas.

E aí temos um problema.

O aumento da taxa de singularização está diretamente ligada ao aumento da taxa de inovação.

Quanto menos singularizada é a sociedade, menor é a capacidade inovadora.

Quanto mais diferentes são as pessoas, maior a quantidade de exceções, demandas, escolhas e caminhos possíveis – o que nos leva ao aumento da taxa de inovação.

Um centro consegue coordenar melhor quando reduz essa diversidade, mas o preço é alto:

  • decisões menos inteligentes;
  • redução da inovação;
  • tendência, assim, de crises constantes da sobrevivência.

Assim:

Centralização demanda Massificação.

A sociedade passa a estimular determinados padrões:

  • profissões mais padronizadas;
  • carreiras mais previsíveis;
  • educação mais uniforme;
  • produtos semelhantes;
  • comportamentos mais homogêneos;
  • referências culturais compartilhadas;
  • projetos de vida mais parecidos.

Isso reduz o custo de coordenação.

Podemos dizer que ocorre uma espécie de pasteurização sobrevivenciológica.

Para coordenar muita gente com ferramentas centralizadas, é preciso diminuir a Taxa de Singularização.

Temos então:

↑ Centralização → ↑ Massificação → ↓ Singularização → ↓ Potencialização  →   ↓ Inovação  →  ↓ Qualidade de vida.

O Sapiens é incentivado muito mais a se adaptar aos padrões existentes do que desenvolver seus Potenciais Singulares.

Não necessariamente porque alguém arquitetou conscientemente esse modelo.

Estamos diante de uma Ordem Espontânea.

Dadas determinadas condições demográficas e midiáticas, determinadas formas de organização tendem a aparecer naturalmente.

A centralização tem uma função, mas também um custo

Isso nos ajuda a evitar uma análise moralista do passado.

É fácil olhar para a Civilização 1.0 a partir das possibilidades atuais e simplesmente condenar suas estruturas centralizadas.

Porém, cada modelo civilizacional precisa ser compreendido diante dos problemas que precisava resolver e das ferramentas que estavam disponíveis.

A centralização permitiu coordenar grandes contingentes populacionais.

O problema é que ela cobra um preço:

reduz a participação das pontas.

E, ao reduzir a participação, reduz também os incentivos para:

autonomia, criatividade, responsabilização, personalização e singularização.

Há dentro deste processo massificante um incentivo a levar as pessoas à zona de preocupação e reduzir as atividades na zona de atuação.

A tendência é a concepção da vida vir do centro e não das pontas. 

As pessoas são treinadas para receber ordens, seguir padrões, repetir procedimentos e buscar estabilidade.

A centralização foi funcional dentro de determinado patamar midiático.

Porém, conforme a Complexidade Demográfica continuou aumentando, o modelo começou a apresentar gargalos cada vez maiores.

Até que surgiu uma nova Tecnopossibilidade.

A Mídia Descentralizadora muda a Topologia de Poder

É aqui que entra o cenário do Mundo Digital.

A grande novidade das Mídias Digitais não é apenas permitir que as pessoas recebam mais informação.

É permitir que as pontas participem progressivamente da coordenação da sociedade.

O Digital cria:

rastros digitais, sistemas de reputação, algoritmos, plataformas, avaliações distribuídas, o aumento da inteligência coletiva e, mais recentemente, Mentes Artificiais.

Tudo isso nos permite começar a resolver problemas complexos de uma nova maneira, reduzindo custos e ampliando produtos e serviços para mais gente.

Isso permite algo que antes era muito mais difícil: coordenar grandes quantidades de pessoas sem que todas as decisões precisem passar pelo centro.

O Waze é um exemplo simples.

Não existe um gestor central definindo individualmente o caminho de cada motorista.

Milhões de motoristas produzem rastros.

Os rastros são agregados.

E o sistema devolve inteligência para as próprias pontas.

É uma nova lógica de coordenação.

É justamente a passagem da Gestão para a Curadoria – uma mudança disruptiva no modelo de cooperação, algo totalmente inédito na vida do Sapiens.

Vivemos, assim, a maior revolução civilizacional da história humana.

Temos agora:

↑ Complexidade → Mídia Descentralizadora → ↑ participação das pontas → ↑ Descentralização  →  ↑ Inovação.

A tecnologia permite finalmente responder à pressão demográfica de outra maneira.

Podemos coordenar sem massificar tanto.

Aqui está talvez a principal novidade da Civilização 2.0.

No passado recente, para coordenar milhões de pessoas, precisávamos massificá-las.

Agora começamos a poder coordenar milhões de pessoas preservando e até estimulando suas diferenças.

Isso muda profundamente a relação entre coordenação e singularização.

Antes:

Coordenação → Centralização → Massificação.

Agora podemos avançar progressivamente para:

Coordenação → Descentralização → Singularização.

É uma mudança estrutural.

A grande novidade das Mídias Descentralizadoras é justamente esta:

Elas permitem administrar um patamar mais elevado de Complexidade Demográfica sem precisar reduzir tanto a singularidade das pessoas.

E isso nos leva diretamente ao Potencialismo.

Da massificação para a Potencialização

Quando as pontas passam a participar mais das decisões, cada pessoa precisa assumir mais responsabilidade.

Quanto mais descentralizada é a sociedade, menos alguém pode simplesmente esperar que o centro diga:

  • O que fazer?
  • O que estudar?
  • Onde trabalhar?
  • Como construir uma carreira?
  • O que consumir?
  • Como organizar a própria vida?

A Civilização 2.0 aumenta exponencialmente a quantidade de escolhas.

É justamente por isso que temos a segunda fórmula:

S = P/D

Quanto maior a Descentralização, maior precisa ser a Potencialização do Sapiens.

A Casa do Eu parte desse problema: a descentralização aumenta a responsabilidade individual e demanda uma nova Formatação Básica Obrigatória, capaz de preparar pessoas mais reflexivas, criativas, singulares e responsáveis.

A passagem para uma Topologia de Poder mais descentralizada exige, portanto, uma transformação não apenas tecnológica, mas existencial.

Precisamos formar outro tipo de Sapiens.

Toda Mídia Descentralizadora inicia uma Renascença

Esse processo não começou com o Digital.

Já tivemos movimentos semelhantes no passado.

A prensa promoveu uma descentralização inédita da informação.

Progressivamente, mais pessoas passaram a ter acesso direto aos livros e às ideias.

Isso ajudou a enfraquecer antigos centros de controle da informação e abriu espaço para um processo de singularização intelectual.

Surgiram novos autores.

  • Novas interpretações religiosas.
  • Novas teorias científicas.
  • Novas formas de produzir conhecimento.
  • Novos projetos individuais.

Não por acaso, a prensa está associada a uma grande Renascença Civilizacional.

O que estamos vivendo agora é um processo semelhante, porém muito mais amplo.

A prensa descentralizou fortemente a escrita.

O Digital descentraliza escrita, voz, imagem, produção, avaliação, reputação e progressivamente a própria tomada de decisões.

Estamos diante de uma nova Renascença Civilizacional.

A Renascença exige uma nova formação

Porém, existe um detalhe fundamental.

Uma nova mídia pode surgir rapidamente.

Um novo Sapiens não.

As Tecnopossibilidades mudam primeiro.

A formação humana vem depois.

Por isso, toda Renascença Civilizacional exige uma revisão profunda da formação.

O Sapiens formado para uma sociedade centralizada foi treinado para receber referências externas.

O Sapiens de uma sociedade descentralizada precisa desenvolver referências internas.

Quanto mais escolhas temos, mais precisamos saber escolher.

Quanto mais liberdade temos, mais precisamos de responsabilidade.

Quanto mais possibilidade de singularização temos, mais precisamos descobrir nossos Potenciais Singulares.

É justamente nesse ponto que a Civilização 2.0 encontra a Casa do Eu.

O Digital cria a possibilidade da descentralização.

A nova formação precisa criar o Sapiens capaz de sustentá-la.

Podemos agora compreender melhor a fórmula S = D/C

A relação entre Complexidade Demográfica e Descentralização precisa, portanto, ser compreendida de maneira mais sofisticada.

Não devemos dizer:

Aumentou a Complexidade → automaticamente aumenta a Descentralização.

Melhor seria:

O aumento da Complexidade Demográfica cria uma demanda progressiva por descentralização, mas a Topologia de Poder possível depende das Tecnopossibilidades midiáticas disponíveis.

O Digital rompe uma barreira.

Pela primeira vez conseguimos administrar bilhões de pessoas, cada vez mais diferentes entre si, permitindo participação crescente das pontas.

Estamos saindo de um ciclo histórico no qual coordenar exigia massificar para outro no qual podemos coordenar singularizando.

Essa talvez seja uma das melhores maneiras de compreender a atual Renascença Civilizacional.

Não estamos apenas descentralizando a sociedade.

Estamos criando as condições para que bilhões de Sapiens possam ser, cada vez mais, diferentes uns dos outros sem que a sociedade, por causa disso, deixe de conseguir cooperar.

A Civilização 2.0 é, assim, a tentativa de transformar diversidade crescente em coordenação sustentável.

Anexo, a partir de mais reflexões:

As reflexões sobre a relação entre Complexidade Demográfica e Topologia de Poder permitiram avançar em alguns pontos da Visão Bimodal. 

O principal ganho foi perceber que não existe uma passagem automática do aumento da complexidade para a descentralização. Entre uma coisa e outra existem as Tecnopossibilidades Midiáticas disponíveis em cada momento histórico.

Centralização conjuntural

O aumento da Complexidade Demográfica gera uma pressão progressiva por novas formas de coordenação. Quanto mais pessoas existem e quanto mais diferentes elas são, mais difícil se torna administrar a sociedade a partir de poucos centros decisórios.

Porém, a necessidade de descentralizar não significa que existam imediatamente condições tecnológicas para isso.

Quando uma sociedade aumenta sua complexidade sem dispor de Mídias Descentralizadoras capazes de distribuir decisões pelas pontas, a tendência é recorrer à centralização como solução conjuntural.

A centralização permite coordenar populações maiores com as ferramentas disponíveis, concentrando decisões em poucos centros e distribuindo posteriormente ordens, padrões e procedimentos.

Assim, podemos diferenciar:

Necessidade estrutural de descentralização ≠ possibilidade conjuntural de descentralização.

A Complexidade Demográfica cria a demanda. As Tecnopossibilidades Midiáticas definem o que é possível fazer diante dela.

Massificação como necessidade da centralização

Uma Topologia de Poder muito centralizada encontra dificuldades crescentes para lidar com populações altamente singulares.

Quanto mais diferentes são as pessoas, maior é a variedade de demandas, interesses, problemas, escolhas e soluções necessárias. Isso aumenta o custo de processamento dos centros decisórios.

Por isso, a centralização tende a estimular a Massificação.

Quanto mais semelhantes forem os comportamentos, produtos, carreiras, métodos educacionais, referências culturais e projetos de vida, mais fácil se torna coordenar grandes populações a partir de poucos centros.

A massificação pode, portanto, ser compreendida como uma estratégia espontânea de redução da complexidade nas pontas.

Temos:

↑ Centralização → ↑ necessidade de Massificação → ↓ Singularização.

Singularização como combustível da inovação

O problema é que a Massificação cobra um preço.

A inovação depende, em grande medida, da existência de pessoas diferentes experimentando caminhos diferentes.

Quanto maior a Taxa de Singularização, maior tende a ser a diversidade de problemas percebidos, perguntas formuladas, experiências realizadas e soluções propostas.

A Singularização funciona, assim, como uma das fontes da inovação.

Quando uma Topologia Centralizada estimula a Massificação, ela reduz progressivamente esse potencial.

Podemos representar o processo:

↑ Centralização → ↑ Massificação → ↓ Singularização → ↓ Potencialização → ↓ Inovação → ↓ Qualidade de Vida.

A centralização resolve um problema conjuntural de coordenação, mas tende, com o tempo, a diminuir a capacidade da sociedade de produzir respostas novas para uma Complexidade Demográfica cada vez maior.

A função sobrevivenciológica da centralização

Essa hipótese permite também abandonar uma interpretação excessivamente moralista da centralização.

Não devemos compreender todos os movimentos centralizadores da Macro História apenas como resultado da vontade de determinadas elites de controlar a sociedade.

Existe também uma dimensão Sobrevivenciológica.

Diante de determinada Complexidade Demográfica e das Tecnopossibilidades existentes, a centralização pode ter sido a alternativa possível para coordenar grandes populações.

O século XX pode ser analisado dessa maneira.

O aumento populacional ocorreu em um ambiente marcado por mídias centralizadoras, como jornais de massa, rádio e televisão, que permitiam uma comunicação extremamente eficiente na direção:

Poucos → Muitos.

Foi possível coordenar populações enormes, mas ao preço de forte Massificação.

A centralização, assim, não deve ser vista simplesmente como um erro histórico, mas como uma solução conjuntural que progressivamente perde funcionalidade conforme a complexidade continua aumentando.

Da Zona de Atuação para a Zona de Preocupação

A centralização não interfere apenas na organização das instituições. Ela tende também a influenciar a maneira pela qual as pessoas concebem a própria vida.

Quanto mais centralizado é o ambiente, mais referências tendem a vir de fora para dentro.

O centro define os assuntos importantes, os padrões desejáveis, as carreiras valorizadas, os modelos de sucesso e boa parte das referências utilizadas pelas pontas.

A pessoa é estimulada mais a seguir caminhos previamente definidos do que a descobrir os seus próprios.

Há, portanto, uma tendência de deslocamento da Zona de Atuação para a Zona de Preocupação.

O indivíduo passa a dedicar mais energia a problemas definidos pelo centro, sobre os quais possui pouca capacidade de interferência, e menos à construção de uma vida baseada nos problemas sobre os quais efetivamente pode atuar.

O Digital rompe a barreira da coordenação centralizada

As Mídias Descentralizadoras criam uma nova Tecnopossibilidade.

Pela primeira vez, torna-se possível coordenar bilhões de pessoas permitindo uma participação muito maior das pontas.

Rastros Digitais, sistemas de reputação, algoritmos, plataformas e Mentes Artificiais permitem distribuir decisões sem que cada uma delas precise passar por um centro humano.

Isso altera a relação histórica entre coordenação e Massificação.

Antes, tínhamos predominantemente:

Coordenação → Centralização → Massificação.

Passamos progressivamente a poder ter:

Coordenação → Descentralização → Singularização.

A grande ruptura do Digital é permitir administrar níveis mais elevados de Complexidade Demográfica sem precisar reduzir na mesma proporção a singularidade das pessoas.

Da Massificação Informativa à Particularização Informativa

Aqui surge um mecanismo importante para explicar por que uma Mídia Descentralizadora favorece a Singularização.

Mídias centralizadas oferecem um Cardápio Informativo Massificado.

Poucos centros selecionam quais notícias, autores, músicas, ideias, profissões, estilos de vida e referências culturais chegarão a milhões de pessoas.

Quanto mais limitado e homogêneo é esse cardápio, menor é a possibilidade de cada pessoa explorar referências compatíveis com suas particularidades.

As Mídias Descentralizadoras alteram esse cenário.

A diversidade informativa aumenta e cada indivíduo passa a poder construir trajetórias informativas muito mais particulares.

Temos:

↑ Descentralização Midiática → ↑ Diversidade Informativa → ↑ Particularização Informativa → ↑ descoberta de interesses próprios → ↑ Singularização → ↑ Potencialização.

A mídia descentralizada não determina que as pessoas sejam mais singulares.

Ela aumenta as possibilidades de descoberta da singularidade.

Quanto maior o universo informativo disponível, maior a possibilidade de cada Sapiens encontrar interesses, problemas, autores, atividades e comunidades que rimem com seus Potenciais Singulares.

Da diversidade como problema para a diversidade como insumo

Há ainda outra mudança importante.

Em modelos centralizados, a diversidade tende a aumentar o custo da coordenação.

Quanto mais diferentes são as pontas, mais difícil se torna para um centro decidir por todas elas.

Nos novos modelos de Curadoria, parte dessa diversidade pode ser transformada em insumo para a própria coordenação.

Os Rastros Cooperativos produzidos por milhões de pessoas diferentes podem ser agregados para melhorar decisões individuais e coletivas.

A diversidade deixa, assim, de ser apenas um problema a ser reduzido e passa também a funcionar como matéria-prima para uma Inteligência Coletiva mais sofisticada.

Abre-se um novo ciclo:

↑ Descentralização → ↑ Singularização → ↑ Potencialização → ↑ Inovação → ↑ Qualidade de Vida.

Da Descentralização para a Potencialização

Uma Topologia de Poder mais descentralizada, entretanto, transfere progressivamente decisões para as pontas.

E mais decisões significam mais responsabilidade.

É nesse ponto que aparece a segunda fórmula estrutural da Visão Bimodal:

S = P/D

Quanto maior a Descentralização (D), maior precisa ser a Potencialização (P) para manter a Sustentabilidade (S).

O Digital não oferece apenas mais liberdade.

Ele aumenta a quantidade de escolhas que cada pessoa precisa fazer sobre trabalho, aprendizado, relacionamentos, consumo, informação e projeto de vida.

Uma sociedade mais descentralizada demanda, portanto, um Sapiens mais capaz de escolher.

Da Potencialização para a Reconceituação

E aqui chegamos a uma terceira etapa.

Não basta aumentar a necessidade de Potencialização sem modificar as bases conceituais utilizadas para formar as pessoas.

Quanto mais potencialista se torna o ambiente, mais precisamos revisar aquilo que ensinamos sobre quem somos, como funciona a sociedade e quais são os caminhos possíveis para uma vida melhor.

Chegamos, assim, à terceira fórmula:

S = R/P

Quanto maior a necessidade de Potencialização (P), maior precisa ser a Reconceituação (R) das bases da Formação Avançada para manter a Sustentabilidade (S).

Existe hoje uma defasagem.

As Tecnopossibilidades Digitais avançam rapidamente.

A Topologia de Poder começa a se descentralizar.

As possibilidades de Singularização aumentam.

A necessidade de Potencialização cresce.

Porém, boa parte da formação continua baseada nos conceitos e demandas de uma sociedade mais centralizada, massificada e previsível.

A Renascença Civilizacional é também uma Renascença Formativa

Toda grande descentralização midiática cria inicialmente novas Tecnopossibilidades.

Mas as pessoas não se transformam na mesma velocidade das tecnologias.

Surge, assim, a necessidade de uma Renascença Civilizacional, que não é apenas tecnológica ou institucional, mas também conceitual e formativa.

É preciso revisar a Formação Avançada para preparar o Sapiens para um ambiente mais descentralizado, dinâmico, singularizado e potencialista.

É justamente aqui que o Formacionismo ganha seu papel.

O Formacionismo procura promover a Reconceituação necessária para adequar nossa formação às novas demandas civilizacionais.

Podemos, portanto, integrar as três fórmulas:

S = D/C → S = P/D → S = R/P

Ou, em linguagem mais direta:

↑ Complexidade Demográfica → ↑ necessidade de Descentralização → ↑ necessidade de Potencialização → ↑ necessidade de Reconceituação.

Essa cadeia permite conectar numa mesma arquitetura Civilização 2.0, Potencialismo e Formacionismo.

A Complexidade Demográfica pressiona pela mudança da Topologia de Poder.

As Mídias Descentralizadoras tornam essa mudança possível.

A nova Topologia aumenta a diversidade informativa, a Singularização e a autonomia das pontas.

Mais autonomia exige mais Potencialização.

E um mundo mais potencialista exige uma profunda Reconceituação da formação.

A Renascença Civilizacional não termina quando inventamos novas ferramentas. Ela se completa quando conseguimos formar um novo Sapiens capaz de viver melhor com as possibilidades que essas ferramentas criaram.

É isso, que dizes?

 

 

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O link para o Glossário Bimodal:

https://bit.ly/glossbimodais

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