Tivemos três Revoluções Cognitivas na história (oral, escrita e digital) que moldaram nosso modelo de governança da espécie e, com isso, a forma de troca de conhecimento. Estamos entrando em outro paradigma cognitivo e podemos inovar na maneira de compartilhar o conhecimento sem algumas velhas amarras conservadoras.
Várias das análises que teremos que fazer para projetar o futuro será o de encarar o fim do longo período da transmissão escrita em algumas fases: pré-alfabética manuscrita, alfabética manuscrita, impressa.
Ou seja, a chegada da Internet inaugura uma nova etapa da humanidade, pois temos um “sistema operacional” novo, que vai reger a maneira como governamos a espécie nos próximos séculos, sob a égide do digital.
Note que a escrita trouxe diversas melhorias para a humanidade, mas uma das principais é a possibilidade da transmissão de conhecimento a distância, o que a oralidade não permitia.
A voz só ganhou asas com o rádio e depois a voz e a imagem com a televisão.
Porém, a chegada do rádio e da tevê, por características, tecnológicas e também políticas mais adiante, acabaram ficando concentradas em poucos canais emissores, que filtravam o que ia para o ar, por uma questão de falta de espaço e interesses de temas.
Assim, desde a chegada da escrita há cerca de 10 mil anos, até hoje, a transmissão de conhecimento oral a distância era impossível e quando foi viabilizada era bastante concentrada.
O conhecimento passou a se utilizar do papel impresso que se tornou o meio mais barato e, portanto, democrático de transmissão de conhecimento.
O livro, entretanto, passa pela escrita, que obriga a cada autor a tentar se expressar em palavras impressas aquilo que pensa.
Nem sempre quem fala bem escreve bem e vice-versa.
A Internet com suas ferramentas de publicação online, desde textos, áudios e vídeos passou a permitir que houvesse uma potencialização e popularização da voz e da imagem.
Hoje, mais e mais gente, organizações e mais organizações, têm a possibilidade de publicar áudios e vídeos sobre os mais diferentes assuntos na rede, divulgando ideias, vide o exemplo do TED, dos canais de pensadores, das aulas online colocadas de forma gratuita.
Ou seja, aos poucos os áudios e vídeos na Internet vão ocupando o espaço que os livros tiveram nos últimos séculos: transmitir ideias a longa distância, sem a limitação de espaço do rádio e tevê e com fontes diversas e alternativas, de forma rápida, simples e barata.
A chegada de uma tecnologia é sempre uma quebra de limites que haviam e passam a não haver mais.
Por tendência, nos agarramos aos limites das tecnologias passadas por acreditar que se era feito daquele jeito, era o jeito “certo” de se fazer, o melhor.
(Temos enraizados a ilusão de uma espécie natural e não de uma tecno-espécie que se molda, conforme o ambiente tecnológico à nossa volta, principalmente o cognitivo.)
Porém, temos diante do novo século, de forma concreta e objetiva, uma nova forma de transmissão de conhecimento que vem ser mais barata e eficaz, como transmissora de ideias a distância que pode ocupar o papel que o livro tem hoje, pois é:
- – barata;
- – de fontes diversas;
- – com ideias distantes.
Vejo algumas vantagens no aumento da transmissão de conhecimento oral:
- – não há a necessidade de tradução da ideia do autor para um outro meio, pois pode-se ouvi-lo falar diretamente. Se for em espaço passíveis de perguntas e repostas, ainda melhor, pois ele vai esclarecendo pontos;
- – quem recebe pode escutar de qualquer lugar, enquanto faz outra coisa, o que elimina a necessidade de parar tudo para ler. Pode-se estudar dentro do ônibus, caminhando, pedalando, esperando o médico;
- – quem recebe não precisa passar pela dificuldade da compreensão do texto impresso, nem sempre tão claro quanto à fala, pois o conhecimento virá diretamente em palavras orais, o que facilita bastante a transmissão
Em um país como o Brasil, que há um déficit enorme da capacidade de leitura, o potencial da transmissão do conhecimento oral é algo interessante, pois, de certa forma, pulamos a fase escrita e podemos aproveitar essa oralidade nacional para conseguir fazer mais com menos.
Obviamente, que haverá perdas, pois a atenção que damos para um livro e todo o movimento cerebral que fazemos ao ler e escrever algo é bem diferente de escutar uma coisa no meio do caos urbano.
Não nego.
Porém, pergunta-se o que é melhor.
Que as pessoas recebam novas ideias mais e mais de forma oral, que é mais viável e barato hoje em dia, ou nos agarrarmos a um mundo escrito que exige algo que o cidadão do novo século não conseguirá atingir?
Aberto o debate.
Por que “decretar” que …”não poderá atingir”… o escrito?
Se mudanças se mantêm plausíveis, por que ‘deletar’ essa tão precocemente?
A maior vantagem de transmissão oral é a humanista, a do contato, a do Tempo, a dialógica; se não for para isso, ficará meio insossa…
Mas uma coisa não precisa “eliminar” a outra, o escrito.
Abs!